(Primeiro
de uma série de textos sugeridos pelo excelente podcast de Mariana Mortágua no “Publico”
– “ Senhores do Algoritmo” - que muito informou sobre o tema)
O Iluminismo histórico — aquele que emergiu no século XVIII — assentou a sua promessa num tripé fundamental: a emancipação do indivíduo pelo conhecimento, a crença na igualdade de direitos e a construção de instituições democráticas capazes de conter a arbitrariedade do poder absoluto.
Foi uma
revolução contra a herança do privilégio de sangue e contra a tirania da
autoridade inquestionável.
No
entanto, nas entranhas do pensamento político e económico do século XXI, gerou-se
um movimento de inversão radical que utiliza as próprias ferramentas da razão e
da tecnologia para desmantelar este legado. É o chamado Dark Enlightenment
(Iluminismo das Trevas) ou Neoreacionarismo (NRx).
Para
compreender esta corrente, é necessário recuar à matriz do neoliberalismo da
segunda metade do século XX, em particular à vertente formulada pela Escola de
Chicago e por pensadores como Milton Friedman.
O
neoliberalismo de Friedman nunca foi meramente uma teoria económica; foi um
projeto de reestruturação da sociedade onde a liberdade de mercado passou a ser
erigida como a única tangível. Contudo, na sua fase clássica, o neoliberalismo
ainda mantinha uma aliança pragmática com o ecossistema das democracias
liberais ocidentais. Afirmava-se, contornando contradições, que o capitalismo
de livre-mercado conduziria inevitavelmente à expansão da democracia política.
O
Iluminismo das Trevas nasce do momento em que essa aliança é rompida pelos
próprios herdeiros do libertarianismo e do capital financeiro-tecnológico.
A tese
central da mutação neoreacionária é simples e brutal: a democracia e o
capitalismo de livre-mercado deixaram de ser compatíveis. E, no impasse entre a
soberania popular e a aceleração do capital, a democracia deve ser descartada.
Criado
nos fóruns da internet, em blogs intelectuais da década de 2000 e nas margens
de prestigiadas universidades e laboratórios de reflexão americanos, o
movimento Neoreacionário ganhou corpo teórico através de figuras como Curtis
Yarvin (que escreveu sob o pseudónimo Mencius Moldbug) e o filósofo britânico
Nick Land, um dos pais do Aceleracionismo.
Yarvin
introduziu o conceito de "A Catedral" para descrever o consenso
liberal-democrático, académico e mediático que governa o Ocidente.
Na ótica
neoreacionária, a "Catedral" é uma estrutura ineficiente, moralista e
burocrática que promove a igualdade como uma ficção prejudicial e bloqueia a
verdadeira inovação. O sufrágio universal é visto não como uma conquista de
cidadania, mas como um mecanismo de degeneração onde o Estado é capturado por
exigências redistributivas da maioria, enfraquecendo a capacidade de liderança
dos mais capazes.
Esta
rutura marca a transição do libertarianismo tradicional para o absolutismo
corporativo. Se o libertário clássico desejava a minimização do Estado em nome
da autonomia individual, o neoreacionário conclui que a ausência de um poder
forte conduz ao caos democrático.
A solução
proposta não é o regresso ao passado feudal por saudosismo, mas a reinvenção do
absolutismo através da tecnologia: o Estado deve deixar de ser um corpo
político eleito e passar a ser gerido como uma empresa privada.
A
gestação destas ideias não ocorreu num vácuo abstrato. Encontrou solo
extremamente fértil nos corredores da academia e nas incubadoras de Silicon
Valley, onde a cultura da "disrupção" já alimentava o desprezo pelas
regras normativas da política tradicional. O ethos do capitalismo de
libertação tecnológica — que celebra o fundador de startups como um
herói quase divino — absorveu rapidamente o léxico neoreacionário.
Neste
ambiente, a noção de que os melhores problemas são resolvidos por engenheiros e
algoritmos, e não por debates parlamentares ou consensos sociais, ganhou o
estatuto de dogma.
O
Iluminismo das Trevas dá cobertura teórica a um sentimento latente entre a
elite tecnológica: a perceção de que a democracia é demasiado lenta, ignorante
e redistributiva para acompanhar o ritmo da inteligência artificial, da
exploração espacial e da biotecnologia.
O
neoliberalismo friedmaniano transformara o cidadão em consumidor. O Iluminismo
das Trevas dá o passo seguinte e converte o cidadão em mero cliente — ou
súbdito — de uma plataforma infraestrutural gerida por uma oligarquia de
gestores inamovíveis.
O
Iluminismo das Trevas é, no íntimo, uma filosofia de recusa sistemática do
progresso humano em termos morais. Rejeita o universalismo em favor do elitismo
biológico ou funcional; repudia os direitos humanos como uma sentimentalidade
ineficiente; e ridiculariza a paz como uma estagnação que impede a seleção
natural das ideias e das corporações.
Ao
rastrear as origens deste pensamento, percebe-se que ele não constitui uma
anomalia temporária, mas a consequência lógica do capitalismo desregulado
levado ao seu limite ideológico. Quando o valor supremo de uma civilização
passa a ser a eficiência técnica e a acumulação sem travões, o imperativo
democrático deixa de ser um ativo e converte-se num obstáculo a ser eliminado.
Neste
primeiro capítulo da análise, fica evidente a génese da ameaça: o
Neoreacionarismo forneceu a arquitetura conceptual que faltava às elites
oligárquicas do século XXI para justificarem o desejo de domínio absoluto.
No
próximo artigo, examinaremos detalhadamente como este ódio à democracia se
traduz no modelo do "Estado-Empresa" e na substituição do debate
político pela governação algorítmica.

<<A solução proposta não é o regresso ao passado feudal por saudosismo, mas a reinvenção do absolutismo através da tecnologia: o Estado deve deixar de ser um corpo político eleito e passar a ser gerido como uma empresa privada.<<
ResponderEliminarSARAMAGO é que os topava bem, conforme descreveu nos cadernos de Lanzarote
---E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez
a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo…