sábado, 9 de fevereiro de 2013

FILME: «O Mentor» de Paul Thomas Anderson



O que mais aprecio nos filmes do Paul Thomas Anderson é que não trata o espectador como se fosse um estúpido a precisar das histórias contadas tim-tim por tim-tim como se fosse a proverbial loira das anedotas. Com ele pode-se contar com uma narrativa sem receio de hiatos nem de subentendidos, já que caberá a quem a vê a necessária interligação dos dados aduzidos.
Mas há outras razões para que um filme de Paul Thomas Anderson constitua uma experiência diferente: é que através da banda sonora, do guarda-roupa e de uma fotografia cuidada ao pormenor, somos convidados para uma viagem no tempo em que se nos cola sobretudo a ambiência da época proposta. E esta situa-se aqui entre o final da segunda guerra mundial e a primeira metade da década de 50, quando os teatros de guerra europeus e asiáticos quase se calaram e milhares de americanos chegaram às cidades de província para aí iludirem o melhor possível os efeitos traumáticos entretanto contraídos.
Joaquin Phoenix é soberbo no desempenho do papel desse Freddie Quell, que procura encontrar no álcool e na mais doentia sexualidade a solução para o seu sofrimento íntimo. Sem que nada lhe dê esse almejado alívio. Por muito respeito que Daniel Day Lewis me mereça, não o vejo a merecer mais o Óscar do que esta incrível interpretação do coprotagonista de «O Mentor».
Quell encontra então Lancaster Dodd, que se arroga da dimensão de mestre de pensamento de uma reduzida corte de seguidores. E a propor-lhe uma cosmogonia com aparente coerência, à qual tenta aderir com o máximo empenho. Afinal não precisamos todos de um Mestre, de um Mentor, de um Deus, que nos oriente e nos sirva um cardápio de valores éticos prontos a consumir?
É pelo menos esse o fito de Lancaster, muito embora os acontecimentos se encarreguem de o desmentir. Porque - e é essa a chave que melhor ilustra o filme - ele é um irmão gémeo de Freddie na busca dos seus próprios demónios interiores. Só que este último parece mais avançado na via para a verdadeira realização pessoal: dispensar a necessidade de qualquer mestre!
Mas o filme não se esgota nesta síntese breve, porque ele é também feito de momentos de tensão de uma consistência inesperada (a visita final de Freddie a casa da antiga namorada e onde só encontra a mãe dela) ou de uma beleza de reter o fôlego (as corridas desenfreadas de motocicleta nas vastas extensões do Grande Deserto).
Ao surgir o genérico final não sobram dúvidas quanto ao percurso distinto seguido futuramente pelo Mestre e pelo seu Discípulo. O primeiro ir-se-á institucionalizando e ganhando adeptos, enquanto o segundo continuará a procurar as respostas para as perguntas, que nem sequer parece capaz de formular para si próprio...

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