sábado, 2 de fevereiro de 2013

FILME: «Soldier of Fortune» de Edward Dmytrik



Um dos piores crimes que me repugnam é o da delação. Haver gente, que comunga dos objetivos de uma luta libertadora e que, depois, perante a polícia, trai os companheiros, sempre me indignou. Daí a minha imensa admiração pela coragem de Nick Nolte e de Ed Harris quando, há alguns anos atrás, se recusaram a bater palmas a Elia Kazan, quando a Academia de Hollywood o resolveu homenagear durante uma das suas cerimónias anuais de entrega dos Óscares.
Essa rejeição do homem leva-me a desvalorizar, admito que de forma dogmática, as obras por ele assinadas, passíveis de adjetivação elogiosa por muitos que como é o caso de «Esplendor na Relva» ou «Há Lodo no Cais».
Mas se Kazan traiu logo que se sentiu apertado pelo cerco dos crápulas do senador McCarthy, sempre me deixou ainda mais siderado o exemplo de Edward Dmytrik, que chegou a estar preso juntamente com os demais elementos dos «Dez de Hollywood», se exilou na Europa e, em 1951, veio a abjurar tudo quanto defendera quatro anos antes, denunciando vinte seis dos seus antigos amigos como tratando-se de comunistas a execrar.
O prémio dessa traição traduziu-se na decisão dos produtores envolvidos em tal caça às bruxas em atribuir-lhe projetos de grande ambição de que este «Soldier of Fortune» é um bom exemplo.
Rodado em 1955, em Cinemascope, constituía o tipo de cinema de grande espetáculo, que visava contrariar a importância crescente da televisão. Por isso contava com um dos atores mais importantes da época, Clark gable, que, mesmo sentindo-se demasiado velho para este papel de galã, entrou entusiasticamente nele, porque satisfazia o seu ativismo anticomunista em que tinha Reagan como notório comparsa.
A história não pode ser mais linear: Susan Hayward vai procurar o marido a Hong Kong dado que ele teria desaparecido no outro lado da fronteira com a China três meses atrás, quando aí cuidava de fotografar bases militares, nunca mais dando sinal de si.
A determinação com que ela enfrenta o meio hostil em que aterra só é comparável com a “sorte” que a bafeja ao encontrar Gable na pele do mafioso que controla os negócios de contrabando na região.
Será ele quem, por amor fulminante, lhe irá resgatar o prisioneiro a Cantão, correndo risco de morte perante os terríveis comunistas, mas ficando com ela como prémio final, depois de garantir o regresso do fotógrafo a casa.
Garante-se o happy end e mais uma brilhante vitória da democracia em versão yankee!

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