terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

LIVRO: « Superman est arabe : De Dieu, du mariage, des machos et autres désastreuses inventions » de Joumana Haddad (Actes Sud)


Nunca me entusiasmei com as quedas sucessivas de Saddam Hussein, Bem Ali, Moubarak, Kadhafi ou, futuramente, de Assad. Por muito ignóbeis ditadores, que eles tenham sido ou ainda sejam, pedem meças a outros com quem o Ocidente parece conviver sem qualquer escrúpulo como é o caso da família real saudita, do emir do Qatar ou do xeque do Bahrain. Serão estes últimos menos autocráticos do que os demais? Ou distinguem-se apenas porque impõem regimes, direta ou indiretamente, teocráticos e restringem liminarmente quaisquer direitos, liberdades e garantias às suas cidadãs femininas?
Quando o Ocidente apoiou as guerras ou revoluções no Médio Oriente foi sempre para derrubar regimes laicos e em que a mulher conquistara, mesmo que mais formalmente do que na realidade, alguma igualdade perante os homens face à lei.
Por isso subscrevo plenamente a opinião da escritora libanesa Joumana Haddad para quem as ilusórias Primaveras Árabes poderão redundar em autênticos Outonos para as mulheres.
E, no entanto, elas também desfilaram aos milhares em Tunes e no Cairo, em Trípoli ou em Sanaa, desejosas de se fazerem ouvir e de verem reconhecidos os seus direitos, mormente os de derrubarem os estereótipos de opressão e de passividade, que lhes envenenam os dias.
Esse combate pela democracia, pela liberdade e pela dignidade humana - que lhes pareceu possível enquanto as revoluções estavam na rua - vai cedendo espaço à desilusão e á conformada aceitação de continuarem adiadas as suas mais legítimas aspirações.
Joumana Haddad assume que «Superman est un Arabe» é bem mais do que um manifesto feminista, redigido enquanto ia esperando aviões em diversos aeroportos. Trata-se de um grito de revolta contra o sexismo, o machismo, o patriarcado e a prevalência da religião nas cabeças dos povos do Próximo Oriente.
Nesse sentido, Joumana Haddad inscreve-se na linhagem da terceira vaga dos feminismos, ao lado de Naomi Wolf ou Élisabeth Badinter, e dissocia-se da suposta dialética eterna entre os dois sexos (da representação uniforme da mulher enquanto vítima impotente e do homem enquanto tirano impiedoso) em proveito de uma igualdade sem identificação ou indiferenciação dos sexos.
De entre muitos aspetos admiráveis na prosa da autora existe a identificação plena com o ateísmo, não se eximindo de listar todas as razões, e mais algumas, para não acreditar em deus, seja ele qual for, dentro ou fora dos três monoteísmos. Porque basta descrer dele, na sua expressão crua e falsamente agradecida: Obrigado meu deus pelos bebés a morrerem de fome em África ou pelos bebés a morrerem de ódio na Palestina».
Dentro do mesmo registo ela coloca a questão de ser sequer exequível sentir-se judeu, cristão ou muçulmano e questionar o intrínseco patriarcado de todas as religiões, sendo a resposta obviamente negativa.
De facto, TODAS AS RELIGIÕES OPRIMEM A MULHER COM O MESMO FERVOR MISÓGINO!
Jubilatóriamente blasfemas e escandalosas, as teses de Joumana Haddad espelham a sua coragem e o anseio pela simultânea libertação da Mulher e do Homem árabes.
O livro permite uma leitura muito liberta de regras, podendo-se começar e prosseguir por onde se quiser, porque os temas vão-se sucedendo: o casamento, a guerra dos sexos, o pecado original ou o envelhecimento!
Existem poemas memoráveis como o dessa «Receita para uma insaciável», que ilustra o tema da «Desastrosa invenção da castidade», e é uma pequena joia dedicada ao amor canibal, onde se suga, se mastiga, se morde, de bebe, se abre o peito, se rasgam as costas, se cortam as veias, e enfim se devora quem se ama. O corpo torna-se no espaço absoluto do desejo, que a mulher celebra, mas também aniquila com o seu infinito apetite.
Igualmente curiosas as repetições obsessivas, que se desejariam gritar. Como essa hilariante carta dirigida aos homens para lhes facultar vinte e nove conselhos sobre a boa utilização do seu pénis e de entre os quais, ao acaso, se escolhe este: O amor requer um campo de batalha em vez de uma sala de operações esterilizada!
Na vertente mais descritiva, Joumana Haddad multiplica reminiscências, evocações e testemunhos, que se acumularam desde que, em criança, se escondia debaixo dos lençóis para ler às escondidas os livros mais ou menos licenciosos da cultura árabe. Depoimentos elucidativos como o da koweitiana Buthayna L.: aprendi inglês para poder pronunciar a palavra sexo sem ter de baixar os olhos. Ou da libanesa Nada K: fui violada por esse mesmo tio, que não perdia nenhuma das missas de domingo. Ou ainda o do empresário libanês Samir H.: Sinto-me quase sempre ameaçado. Barbas compridas por todo o lado. O número de mulheres veladas a aumentar exponencialmente.
A autora, que já publicara «J’ai tué Shéhérazade» alguns anos atrás, confirma ser, nos dias de hoje, uma das vozes mais interessantes, quando se trata de saber quem contribui para mudar as mentalidades nos países árabes.   

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