segunda-feira, 13 de maio de 2013

POLÍTICA: o modelo alemão e o bip bip


Na edição francesa do «Le Monde Diplomatique» da passada semana, surgiu um artigo de Pierre Rimbert, que ecoa muito do que temos defendido em relação à aplicação do modelo de austeridade aos países mais fragilizados pela crise das dívidas soberanas. Intitulado «O modelo alemão ou como obstinar-se no erro» o articulista começa por recorrer ao universo da banda desenhada para criar uma metáfora bastante certeira das instituições internacionais representadas pela troika: Não é raro que um personagem de Tex Avery, seja levado pelo seu ritmo a ultrapassar a beira de um precipício e prossiga a sua corrida no vazio durante alguns instantes antes de morder o pó lá em baixo.
As políticas de austeridade impostas aos países europeus pela Alemanha, pelo Banco Central Europeu e - com um entusiasmo cada vez mais mitigado -  pelo Fundo Monetário Internacional, bem como pela Comissão Europeia, atingiram o ponto em que o corredor compreendeu de súbito nada ter debaixo dos pés, e deita uma olhadela desesperada antes de se precipitar no vazio?
Ainda não, apesar da recessão verificada em todos os países da União Europeia à exceção da França e do Reino Unido, que estagnaram, ou da Polónia, que cresceu 1%. Nem mesmo pelo facto de a zona euro condenada à burocracia austeritária ter chegado aos 19,2 milhões de desempregados (12,1% da população ativa segundo o Eurostat), um record revelador da degradação vertiginosa das condições de vida dos povos em causa.
É certo que o chefe economista do FMI reconheceu em janeiro que a instituição subestimara os desgastes significativos relacionados com o imperativo da restrição orçamental: aonde o modelo previa que a redução da despesa pública em um euro implicaria uma quebra de 0,5 euros da riqueza produzida, teve de se corrigir para um valor cinco a seis vezes superior.
Também se verificou errada a tese dos ilustres economistas de Harvard Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em como uma dívida superior a 90% do produto interior bruto comprometeria o crescimento: um estudante da universidade do Massachussets demonstrou como os partidários da austeridades a qualquer custo tinham afastado dados contraditórios com as suas premissas e construído um modelo falseado por erros de cálculo.
Não seria preciso tanto para que um burro se decidisse a dar meia volta. Mas a exemplo das personagens de Tex Avery, os banqueiros centrais, os economistas ortodoxos e a generalidade dos dirigentes políticos ignoraram os factos e continuam a galopar na direção da sua crença.
Esse credo é o chamado «modelo alemão», implementado pelo antigo chanceler alemão Gerhard Schroder e depois sistematizado pela direita alemã. Baseia-se na «ativação coerciva» dos desempregados pelos cortes nas prestações sociais e na obrigação em aceitarem empregos mal pagos ou em tempos parciais. Depois, na criação de um mercado de trabalho flexível e precário, destinado a acolher os novos assalariados num país desprovido de salário mínimo, em que se estabelecem acordos sindicais específicos em que a manutenção dos empregos depende de um maior rigor salarial ou dos horários de trabalho de acordo com as conveniências do empregador.
Esse aparelho produtivo tornado «competitivo» pela redução dos custos de trabalho e dopado pela fiscalidade facilitadora para o empregador, terá por objetivo a criação bens exportáveis e capazes de conquistarem os mercados emergentes.
No papel esse modelo seduz, já que a Alemanha tem um índice de desemprego muito inferior em relação ao dos seus vizinhos do sul (6,9%) e uma balança comercial excedentária, o que explica a popularidade intocável da chanceler Merckel.
Mas o lado sombrio desse «consenso á moda de Berlim» poderá comprometer toda a zona euro. O paraíso das pequenas e médias empresas é também o da precariedade em que quatro em cada dez assalariados ganha menos de mil euros por mês. Ou onde as mulheres são acantonadas nas tarefas domésticas ou em part-times: pagas a menos 23% do que os homens elas representam a maioria dos três milhões de assalariados remunerados a menos de 6 euros por hora. E onde o crescimento acabou negativo em 2012 para se perspetivar um índice positivo de 0,5% em 2013.
Ainda assim esta crença continua a ter a sua igreja, os seus prelados e cardeais. E os seus inquisidores sentados na liderança de jornais e cadeias de televisão. Dispostos a acusarem de heresia quem olha para a realidade tal qual ela é.

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