domingo, 19 de maio de 2013

POLÍTICA: Interpretar o presente para reconquistar o futuro


De entre as publicações regulares, que vão surgindo nos quiosques e nas tabacarias deste país, a edição portuguesa do «Le Monde Diplomatique» é uma das mais estimulantes. Porque importa compreender lucidamente o mundo que nos rodeia e o quanto devemos fazer para o transformar de acordo com os valores de liberdade, solidariedade e fraternidade, desde há mais de dois séculos tidos como sinónimos de democracia com D grande.
Na edição de maio temos um interessantíssimo artigo de Serge Halimi - diretor da edição francesa do jornal - que, antes de abordar as estratégias a adotar para reconquistarmos o nosso futuro (e ficamos já a salivar por tal texto anunciado para breve), procede a uma análise das características do passado recente e deste presente em que nos vemos tão coartados nos nossos direitos pela ganância das oligarquias financeiras.
Sem prejuízo das vantagens em conhecê-lo na integralidade, vale a pena fazer aqui um resumo sintético do seu conteúdo.
Logo à partida o autor reconhece que nestas últimas décadas, a transformação do mundo foi tão rápida que ultrapassou a nossa capacidade de a analisar. E elenca alguns dos acontecimentos responsáveis por essas mudanças: a queda do muro de Berlim, a emergência dos BRIC’s, as novas tecnologias, as crises financeiras, as revoltas árabes e o declínio europeu.
Três são as principais tendências identificadas para estes tempos adversos:
· o aprofundamento das desigualdades sociais;
· a decomposição da democracia política;
· o encurtamento da soberania nacional;
Chegámos a um tempo em que os governos dependem prioritariamente das arbitragens de uma minoria favorecida (a que investe, especula, emprega, despede, empresta), dão o seu consentimento à deriva oligárquica dos sistemas políticos.
E, quando os governos não se mostram servis perante essa minoria a consequência tem sido inevitável: a pressão internacional do dinheiro organizado empenha-se em mandá-los embora.
Durante muito tempo as desigualdades não foram um problema maior para a estabilidade política. Francis Fukuyama, conhecido intelectual conservador, explica o porquê no seu livro  «As Origens da Ordem Política»: o sistema só mantém legitimidade se as pessoas continuarem a acreditar que, se trabalharem duro e derem o melhor de si, eles próprios e os seus filhos têm boas hipóteses de progredir, e se tiverem boas razões para pensar que os ricos se tornaram ricos, respeitando as regras do jogo.
É essa fé, que está cada vez mais a desvanecer-se com as provas reiteradas de se tornar extremamente improvável a ascensão social de quem nasceu em estratos menos favorecidos.
Assim, ao mito da mobilidade social, sucede o medo da desqualificação social. Um operário já não tem grandes hipóteses de se tornar patrão, jornalista, banqueiro, professor universitário ou responsável político. Os estabelecimentos de ensino de elite estão ainda mais fechados às categorias populares do que no passado.
As propinas estão a aumentar um pouco por todo o lado e a ambição pode redundar em grandes tragédias como resulta do relato de um jovem universitário norte-americano, publicado num texto de Tim Mak (“Unpaid Student Loans Top $1 Trillion”): Devo 75 mil dólares. Em breve serei incapaz de pagar as minhas prestações. Como o meu pai é meu fiador, vai ser obrigado a pagar a minha dívida. Também ele irá à falência. Portanto, eu terei arruinado a minha família por ter querido elevar-me acima da minha classe.
Conclusão de Serge Halimi: Este estudante quis viver o sonho americano, «da pobreza à riqueza». Por sua causa, a família vai percorrer o caminho inverso.
O artigo dá então exemplos eloquentes de como a riqueza vai ficando cada vez mais mal distribuída em diferentes latitudes:
· a família Walton, proprietária do gigante da distribuição Walmart, detinha há trinta anos, 61 992 vezes a riqueza média americana. Provavelmente não era suficiente, tendo em conta que hoje possui 1 157 827 vezes mais;
· no ano passado o Banco de Itália anunciou que «as dez principais fortunas nacionais [detém] tanto dinheiro como os 3 milhões de italianos mais pobres;
· os multimilionários indianos, que em 2003 possuíam 1,8% da riqueza nacional, apoderaram-se já de 22% passados cinco anos;
Mas a concentração de capital na mão de cada vez menos pessoas constitui um entrave óbvio ao bem estar de uma população: a questão é a de saber como assegurar o desenvolvimento de um país cujo crescimento beneficia cada vez mais um pequeno grupo que já não compra grande coisa, pois já tem quase tudo. Um grupo que, em consequência, entesoura ou especula, alimentando um pouco mais uma economia financeira já parasitária.
As atuais políticas austeritárias têm, inegavelmente, uma marca de classe e destinam-se a perpetuar essa relação de forças desigual entre os mais ricos e os cada vez mais numerosos pobres: O capital menos taxado do que o trabalho, dedica à consolidação dos seus apoios políticos uma parte das poupanças efetuadas graças às decisões que o favoreceram - como uma fiscalidade complacente, o salvamento dos grandes bancos que transformaram em reféns os pequenos aforristas, ou ainda a pressão sobre as populações para pagar prioritariamente aos credores, no quadro de uma dívida pública que constitui, para os ricos, um objeto de investimento (e um instrumento de pressão) suplementar.
Em síntese: os ricos utilizam a sua fortuna para aumentar a sua influência, e em seguida a sua influência para fazer crescer a sua fortuna.
Confirma o já referido Francis Fukuyama: Com o passar do tempo as elites estão em condições de proteger as suas posições manipulando o sistema político, colocando o seu dinheiro no estrangeiro para evitar a taxação e transmitindo estes benefícios aos filhos graças a um acesso privilegiado as instituições elitistas.
Estamos, pois, numa economia globalizada em que o «vencedor fica com tudo»; sindicatos nacionais feitos em fanicos; uma fiscalidade leve para os rendimentos mais pesados; a máquina produtora das desigualdades está a remodelar todo o planeta.
E é um político socialista francês, Bernard Hamon, quem, desiludido, reconhece: tem-se a impressão que uma política de esquerda ou de direita apenas doseia de forma diferente os mesmos ingredientes.
Até porque quem poderia exercer o seu poder de cidadania e virar este estado de coisas anda a ser alienado pelo matraqueamento dos argumentos da incontornabilidades destas políticas: é que esta «ditadura de facto» conta com os grandes meios de comunicação social para criar os temas de diversão que atrasam e a seguir desviam as revoltas coletivas , que personalizam, ou seja despolitizam, os escândalos mais gritantes.
Esclarecer as verdadeiras forças do que está a ser tramado, os mecanismos graças aos quais riquezas e poderes foram capturados por uma minoria que controla tanto os mercados como os Estados exigiria um trabalho contínuo de educação popular.
As múltiplas contestações a tal «ditadura de facto» reiteram a recusa crescente a esta forma de governar. Mas, apesar da dimensão da crise, elas continuam à procura de propostas alternativas, meio convencidas de que estas não existem, ou implicariam um preço proibitivo. É daí que surge uma exasperação desesperada, para a qual é urgente encontrar saídas.

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