sábado, 25 de maio de 2013

FILME: «Casque d’Or» de Jacques Becker

Vivendo entre 1906 e 1960, Jacques Becker teve vários dos seus filmes a merecerem ultrapassar o crivo do tempo, quer através da cinefilia mais institucional (Godard recorreu a extratos do seu “Le Trou” para as suas “Histoire(s) du Cinéma”), quer quanto aos seus títulos mais vocacionados para o grande público, como é o caso de “Ali Baba et les quarante voleurs», que continua a passar regularmente na televisão francesa. Os filmes integrados na classificação de «destinos trágicos» - “Falbalas” e “Montparnasse 19”- também têm os seus fãs incondicionais, que organizam autênticas sessões de culto.
Mas “Casque d’Or” (1952) reconcilia as diversas vertentes da filmografia de Becker, talvez por comportar um lado renoiriano (foi montado por Marguerite Renoir e Becker foi, ele próprio, assistente do realizador de “A Regra do Jogo”). Ou então por ilustrar a facilidade com que o cinema fixa para sempre a aparência de corpos que a memória coletiva reteve noutras fases da vida, nomeadamente a sensualidade de Simone Signoret e a juventude de Serge Reggiani?
Na Paris de Maupassant, do absinto e dos apaches, Roland e os seus cúmplices aguardam o convite de Félix para um golpe a sério.
Não se pode entrar em nenhum sítio sem encontrar putas!, queixam-se as clientes respeitáveis dos cafés, que frequentam.
Tudo estaria bem entre jogos de cartas e passeios pelo campo, entre pequenas burlas e roubos à mão armada, se Marie fizesse o que dela se esperaria.
Mas Marie, tida como a «mais chata das meretrizes de Belleville», recusa a corte de Félix e obstina-se a trabalhar sob a proteção de Roland, apesar de o desprezar. Mas, pior ainda, ela enamora-se por um honesto carpinteiro, Manda, que nada tem a ver com  o mundo deles.
A atração é recíproca e Manda não se intimida perante Roland, quando decide levar Marie consigo para longe dali.
No entanto, na rixa entre os dois, Roland morre e o casal só contará com alguns dias de felicidade no campo antes que, Félix - julgando finalmente conquistar Marie! - consiga a prisão de Manda.
Decidido a vingar-se, Manda foge da prisão e conseguirá abater Félix como um cão, mas acabará guilhotinado na presença de Marie.
O filme faz lembrar os quadros de Auguste Renoir e os filmes do filho Jean: Simone Signoret a valsar lembra a Sylvia de “Partie de Campagne”: ambas provocam o desejo dos que só têm olhos para elas , seguidas por planos panorâmicos inesquecíveis. E temos as mesmas margens do Marne ao sol a acolherem os amantes, com a natureza a convidar à união dos corpos ao som de um tema musical triste  e indiciador da efemeridade da sua felicidade.
Também evocamos Max Ophüls (“La Ronde” ou “Le Plaisir”) para esta mesma celebração do amor e dos breves momentos de felicidade feitos de olhares e de partilhas de sonhos.
As metáforas, a exemplo desses dois outros realizadores, são utilizadas com elegância. Não vemos Marie a prostituir-se para Roland, mas, na barca em que se passeiam no Marne, é ela quem rema. Ouve-se a camponesa que aloja os dois amantes a afirmar que já não é algo para a sua idade, mas come avidamente as migalhas de pão ao vê-los sair do quarto na manhã seguinte. Marie atrai Manda para uma igreja aonde ocorre uma cerimónia de casamento, mas só tem para se cobrir um véu escuro, que a transforma já em viúva. E, finalmente, os cabelos desgrenhados na almofada no grande plano em que é contemplada emotivamente por Manda contrasta com o penteado sofisticado por ela ostentado no resto do filme e referenciado no título, o que serve para demonstrar que as noites passadas no campo constituem um instante espoliado a um mundo ultracodificado (os corpetes, a técnica da valsa, as classes sociais).
Para concluir este drama, Jacques Becker escolheu a via narrativa depois imitada por James Cameron no “Titanic”, outra crónica de um amor tão breve quanto intenso: a heroína viu morrer o seu homem ideal, mas prefere conservar dele a imagem da valsa, que ambos dançavam então, encantados e descontraídos.



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