segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ideias: Cantar e Falar


«Chanter - Reprendre la Parole» é um ensaio filosófico assinado por Vincent Delecroix, que esteve em foco na mais recente emissão semanal do programa de Raphael Enthoven no canal franco-alemão ARTE.
Parte-se de uma constatação de Vladimir Jankelevitch: quase sempre se considera louco o homem que fala sozinho, mas poucos se atreveriam a dizer o mesmo de quem canta para si mesmo. Pelo contrário, este é tido como uma personalidade alegre, porventura simpática.
Conclui Jankelevitch: a palavra é orientada para a comunicação, enquanto o canto é cingido á sua função de expressão. Mesmo considerando que o canto pode ser mais impúdico do que a palavra, sobretudo se enuncia temas amorosos.
O canto é, assim, a expressão de se sentir existir, sem obrigar à comunicação com outrem para a qual se recorre à palavra.
Parte-se, então, para um dos mitos fundadores da cultura ocidental, quando Ulisses pede aos seus companheiros para o amarrarem ao mastro do navio para que possa ouvir sem quaisquer riscos o encantador canto das sereias.
Homero oferece-nos uma metáfora, já que o canto surge como a representação das emoções primitivas a que o ser humano desejaria regressar (o mito do bom selvagem, que Rousseau viria a consagrar), mas abandonadas pela racionalidade do navio em movimento e em progressivo afastamento desse passado perdido, o universo mágico original descrito como Éden pela Bíblia cristã, mas igualmente capaz de adotar outras formas em tantas e tão díspares civilizações e religiões.
Vincent Delecroix prossegue a via já aberta por Theodor Adorno e Max Horkheimer, quando estudaram a «Odisseia» na lógica dos seus subentendidos filosóficos.
Chegamos então à tese de vermos cantado o pensamento mítico, enquanto a razão decorre da permuta de palavras entre seres sociabilizados.
Temos a razão a comandar o progresso e a evolução das sociedades, enquanto o canto constituiria a forma de garantir a pertinência de algo cada vez mais escondido no inconsciente coletivo desde a transformação do grito animalesco dos primeiros hominídeos na modulada expressão das palavras do homo sapiens.
Em bom rigor a busca posterior do canto perfeito correspondeu ao obsessivo reencontro com algo desse canto original, quando a primeira língua mais não era do que a mistura indistinta entre a palavra e o canto. Porque a aquisição da palavra envolvera o risco de um adeus permanente ao canto.
Passados milhões de anos sobre essa dissociação entre o canto e a palavra, concomitante com a transformação cada vez mais consolidada do homem em ser social, chegamos a questões sobre o que significa hoje o ato de cantar. Na ópera, por exemplo, o ele é um alibi para a expressão de um valor social: serão raros os que vão a um espetáculo de ópera pela fruição musical, já que importa sobretudo a sensação de pertença a um estrato social específico. É o canto enquanto paradigma do artificial.
Mas, quando nos deixamos seduzir por uma voz singular (não obrigatoriamente uma voz perfeita!), associamo-la a características femininas ou, pelo menos, assexuadas. O drama de Farinelli e dos demais castrati foi o de terem vivido numa época em que não havia qualquer escrúpulo em transformar fisicamente alguém para que se tornasse num mero instrumento para o canto.
Produzem-se monstros, que possuem belas vozes, independentemente do aspeto exterior a que foram sujeitos. E essa distância entre o que se canta e quem canta funcionou até muito recentemente com outros exemplos não menos grotescos como o de ver uma soprano velha a gorda a personificar uma adolescente ingénua, enredada nos seus devaneios amorosos. O que confirma esse carácter muito particular do canto, associável ao que não possuímos racionalizado.
O canto exprime esse tal primeiro sentimento de existir, de ter emoções identitárias, que nos dissociam dos outros seres sociais com quem convivemos. Mas, paradoxalmente, porque só possível pela expiração dos pulmões, acaba por também nos trazer a presença da morte. Nesse sentido, além da expressão de vida, o canto também acaba por nos confrontar com a própria ideia da morte...

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