quinta-feira, 9 de maio de 2013

LIVRO: «Um Escritor Confessa-se» de Aquilino Ribeiro (7)


No final deste mês comemoram-se cinquenta anos sobre o desaparecimento do grande mestre, que foi Aquilino Ribeiro. Na sequência de seis textos anteriores, aqui no blogue, vamos prosseguir a abordagem dos seus anos de juventude recorrendo ao seu livro de memórias «Um Escritor Confessa-se», que havíamos deixado, quando ele abandonara de vez a possibilidade de enveredar pela vida religiosa e trocara o Seminário de Beja pela aliciante vida lisboeta.
Encontramo-lo então alojado numa casa de hóspedes, aonde convive com uma fauna muito característica, capaz de lhe aguçar o sentido de observação: À mesa da pensão, com empregados de comércio, estudantes, militares, funcionários públicos, era como que o microcosmo da urbe. Eu, recém-chegado, apoucava-me a um canto a admirar a facilidade de maneiras dos comensais. Todos me pareciam grãos-senhores, chegados duma embaixada ao Papa, dando ao dente com honra para os pitéus, que o não mereciam. E perante o majestoso da sua filáucia, senti-me ínfimo e descoroçoado. Quando chegaria eu a possuir rasgo e ciência do mundo bastantes para nivelar com esta gente experimentada da vida, fluente na expressão e com um aparato fácil de gestos?
Ninguém se dignava ter um olhar para mim ou ter para comigo uma atenção, e eu merecia-o que vinha dum seminário de campónios por esfalcar, nascera e me criara nas madrigueiras da serra. Comprazia-me deste modo a rever a minha canhestria e bisonhice. E achava bem feito, mas interiormente revoltado, que a própria criada, a menina Augusta, a servir, me deixasse para o fim de todos.
Mas essa estadia, em 1904, é de curta duração já que lhe faltam os meios e o emprego bastantes para lhe proverem o suficiente para se governar. Depressa tem de reconhecer a inevitabilidade de regressar a Soutosa, aonde teria garantida na casa paterna a alimentação e a cama lavada.
Bem castigado eu fui pelas rebeldias com ter de vilegiaturar três quartos do ano na aldeia, voltando
a costear o rio de coisas de que me havia segregado a condição de estudante. Não me integrei perfeitamente na vida rústica, pois que não me prestei a cavar a terra nem a
preocupar-me com o rendimento dos agros.
Mas tão-pouco a rocei como um senhorito. À parte os
meus hábitos de leitura, a que são avessos os camponeses, ia dizer por muita sorte,
tratando-se dos livros escolares em que aprendem, depois, dos livros que lhes metem à cara nos escaparates, pouca diferença fazíamos.
Ia às festas, às feiras e romarias com eles, bailava nos
terreiros, e, frequentando os serões estabulares, tomava parte em zaragatas, bodeganas, bandeado em suas maltas.
Levei tão longe o meu aldeanismo que, nos despiques de povo para povo, últimos vestígios ou últimos reflexos das antigas guerras tribais, vislumbráveis nestas rixas, eu alinhava na falange do lugar, armado de varapau e revólver.
Embora contrariado ele não deixa de recolher novos conhecimentos para o seu futuro ofício de escritor, já que os passeios pelo campo ou as caçadas vão-lhe ofertando uma perspetiva bem mais alargada do que é a natureza: Eu, à força de calcar devesas e montados, aprendi a conhecer ao simples lance de olhos as madrigueiras da zorra, em que mora e cria, e as covas do coelho, distinguindo aquelas em que se acoitam quando perseguidos e aquelas em que se abrigam quando neva. Sabia os recostos onde pernoitam as perdizes consoante a temperatura do dia e os sítios predilectos dos prados a que costumam acudir logo de manhãzinha a almoçar as fibrilhas tenras dos cereais nascentes ou o grão das leiras que se esfarelou da espiga no punho dos segadores.



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