sábado, 4 de maio de 2013

LIVRO: Andamos à deriva dentro das nossas vidas?


Acaba de ser lançado em Inglaterra o volume de cartas de Kurt Vonnegut, o escritor norte-americano que se considerava um viajante no espaço e nos considerava a todos como estando à deriva nas nossas próprias vidas.
Nascido em Indianápolis em 1922 no seio de uma família de origem alemã ele não se revela aluno brilhante, quer quando se orienta para a escrita, quer quando se vira posteriormente para a bioquímica.
O seu alistamento para a guerra então em curso na Europa ocorre já em finais de 1943, levando-o para os combates intensos na floresta das Ardenas. Aprisionado em Dresden, recebe a notícia do suicídio da mãe e não tarda a viver o momento determinante da sua biografia: o bombardeamento da cidade pela aviação aliada, por ele testemunhado a partir do matadouro aonde estava encarcerado.
A experiência é tão intensa, que só consegue reproduzi-la num romance, passado um quarto de século. Mas a espera valeu bem a pena: vivendo-se então o grande debate da justeza ou não da Guerra da Indochina, Matadouro 5 vem ilustrar da melhor maneira os dilemas então colocados à sociedade norte-americana.
O sucesso será tão imediato, que Vonnegut deixará de ser o escritor mais ou menos anónimo, que vai publicando alguns contos de ficção científica em revistas do género, ao mesmo tempo que vai cumprindo alguns empregos de ocasião (o de vendedor de automóveis ou o de professor de escrita criativa na universidade do Iowa, por exemplo!).
Este volume com a coletânea das suas cartas entre 1950 e 2007 (ano da sua morte) não traz grandes revelações, mas é elucidativo sobre o seu percurso pessoal e literário, bem como da influência incontornável sobre toda uma geração de grandes escritores, que se lhe seguiram (John Irving, David Foster Wallace). E, sobretudo, demonstra a sua permanente atitude de contestação da direita norte-americana como aconteceu nos anos de George W. Bush, contra quem não calou algumas das suas mais truculentas críticas.
Valerá ainda a pena aqui reproduzir as suas oito regras fundamentais para criar um conto eficaz:
1. Preencha o tempo de alguém desconhecido sem que seja sentido como uma mera perda de tempo;
2. Ofereça ao leitor pelo menos uma personagem com quem se possa identificar;
3. Cada personagem deverá alcançar algo, nem que seja um copo de água;
4. Cada frase deverá implicar uma de duas consequências: ou esclarecer sobre o carácter de alguém ou fazer avançar a ação;
5. Comece a história tão perto do fim quanto possível;
6. Seja sádico: não interessa o quão inocente ou simpático é o protagonista. Importa fazer com que lhe aconteçam coisas horríveis bem reveladoras da sua têmpera;
7.  Escreva para só agradar a uma pessoa: a partir do momento em que quiser fazer-se amar por toda a gente a história engripa-se;
8. Ofereça aos leitores o máximo de informação possível. Mande o suspense às malvas. Os leitores deverão ter um entendimento tão completo quanto possível do que sucede, aonde e porquê de modo a criarem a sua própria resolução da história.
Do que fica referido compreende-se o interesse dessas cartas do escritor por quase seis décadas de vida!

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