domingo, 26 de maio de 2013

IDEIAS: A Morte

Vladimir Jankelevich reparava que não aprendemos a morrer, nem nos preparamos para esse inevitável desenlace. E, no entanto, concluía o filósofo que a morte exige uma preparação sem preparativos.
Se há quem considere que filosofar significa precisamente aprender a morrer, não sabemos verdadeiramente o que é a morte por muito que lhe conheçamos as premissas (a doença, o envelhecimento, a solidão) e os efeitos (o luto, o apodrecimento do corpo).
Suspeitamos que ela seja o desenlace de uma vida que passou a dissociar-se de um corpo. E há quem, como Sócrates, tenha a esperança de por ela encontrar a via aberta para uma forma de plenitude. O que não o impediu de confessar a sua inquietação no momento em que se preparava para ingerir a cicuta.
Uma boa forma de preparação para a morte poderá ser a de a reavaliar positivamente. Mas como, se tudo na cultura humana nos incita a nega-la?
Vejamos o exemplo da fotografia de outubro de 1967 em que vemos o corpo do Che rodeado pelos seus carrascos. Os seus olhos abertos negam o carácter mórbido da fotografia, convidando-nos a uma perenização do combatente revolucionário muito para além daquele instante preciso. No fundo, querendo demonstrar a morte do Che, os militares bolivianos garantiram-lhe a admiração eterna.
Arthur Schopenauer revelava as influências budistas no seu pensamento, quando convidava os leitores a não lamentarem as árvores, que se despiam das suas folhas no outono. É que, tombadas no solo, aparentemente mortas, elas logo se tornavam essenciais para a fertilização do solo e a prosseguirem vivas de uma outra forma.
É, pois, inegável o fascínio que a morte exerce em nós. Era Montaigne quem considerava a existência intensificada pela presença repetitiva da ideia de morte. Por exemplo, numa autoestrada é comum os condutores refrearem velocidade para o ato de voyeurismo de olharem para o acidente mortal na outra faixa.
Olhamos para a morte alheia como forma de exorcizar a ideia da nossa própria morte. Até porque reconforta-nos a ideia de ela acontecer por acidente - a que nos julgamos imunes - em vez de decorrer da imparável passagem do tempo (velhice) ou da degradação do corpo (doença).
Rejeitamos o mais possível o conceito “a minha morte”. No seu ensaio «Considerações atuais sobre a guerra e a morte», Freud afirma que não existe espaço no inconsciente humano para aceitar a ideia da sua própria morte. Daí que, em situações extremas, seja fácil a alguns avançarem para atos de admirável heroísmo: nesse instante o “herói” exclui a possibilidade de morrer efetivamente.
É a sabedoria oriental que se aproxima mais de uma proposta viável para a preparação para a morte, quando o sábio decide dissociar-se das coisas terrenas, despedindo-se da família e afastando-se para, solitariamente, enfrentar a eternidade em que acredita. Mas ele nega ainda assim a ideia de morte, convencendo-se em como a vida é doce desde que a ela se renuncie.
Nas nossas sociedades ocidentais a alternativa a essa ideia incómoda é afastá-la de nós o mais possível: se nos fascina espreita-la na televisão ou nas autoestradas, tratamos de assegurar a morte dos familiares nos hospitais e em velá-los o mínimo tempo possível.  Afastando assim a tradição da morte em casa, rodeado pela família e pelos amigos.
No fundo a única forma de preparação para a morte acaba por ser a velhice enquanto esvaziamento progressivo das capacidades e competências, que se haviam tido. O que dá razão a Hegel quando considera a Morte como negação do Valor.


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