terça-feira, 21 de maio de 2013

HISTORIA: os Borgia como guias da primeira etapa da sífilis na Europa do Renascimento


Para quem tem acompanhado a série mediana sobre os Bórgia, em exibição num dos canais da televisão por cabo, sabe que, se os corredores do poder são focos de intriga política, poucos superaram os do Vaticano na época renascentista em que se notabilizou essa família de origem espanhola.
Quando, em 1492, Rodrigo Borgia consegue ser bem sucedido nas suas urdiduras para ser nomeado Papa - o cargo mais elevado  que um homem podia então alcançar no mundo ocidental - apenas enceta a estratégia sem escrúpulos destinada a assegurar a primazia da sua família na política mundial.
Não olhando a meios, Rodrigo não hesita em nomear os filhos para os cargos, que lhe convenham, ou recorrer ao casamento para forjar alianças com potenciais apoiantes. E, quando perdiam essa utilidade, os aliados conjunturais eram abandonados sem qualquer cerimónia.
«Blood and Beauty», o romance de Sarah Dunant publicado no início do mês em Inglaterra, tem Lucrezia por protagonista, apresentando-a como uma conspiradora nata e uma assassina sem reservas mentais. Ainda que sobressaia do livro a ideia de que ela constituiu um mero peão político sempre a contas com a busca de uma inalcançável felicidade.
Mas o romance vai mais longe ao abordar o papel da sífilis nessa Europa dos finais do século XV. E entramos nesse assunto, quando descobrimos onde e quando Cesare Borgia contraiu a doença: o filho do Papa Alexandre VI - que fora por este nomeado Cardeal com apenas 22 anos - é enviado a Nápoles no verão de 1497 para a coroação do respetivo rei. Ora, a cidade tem quase tantos conventos como bordéis e, acabada a cerimónia, o embaixador do Vaticano não hesita em passar umas horas de prazer.
Talvez não tenha tido o azar de Maquiavel, que conta num dos seus textos como se aterrorizara ao acender a luz da vela depois de consumada a fornicação numa prostituta, e descobriu ser esta uma bruxa careca e desdentada de cuja terrível imagem não mais se conseguiria dissociar. Mas as consequências foram decerto bem mais gravosas: não tarda que Cesare veja o pénis atormentado por doloroso tumor, que se estende a dores incapacitantes e a terríveis pústulas por todo o corpo. A Europa começava a descobrir uma nova doença, que ganhava a dimensão de uma verdadeira epidemia.
Sabemo-lo através do médico pessoal do cardeal, Gaspar Torella que, ao longo dos anos seguintes, registou os sintomas e as sucessivas tentativas de cura do paciente, que descreveu com o pseudónimo de Niccolo, o Jovem.

Na altura surgiram muitas teorias sobre a origem de tal maldição; uma conjunção astrológica dos planetas, um castigo de um Deus revoltado com a prostituição ou, uma nova praga trazida do Novo Mundo pelos soldados de Columbo e, depois, fermentada nas prostitutas napolitanas.
Independentemente da causa, o horror e a agonia eram indiscutíveis: Tão cruel, tão angustiante, tão terrível que, até agora, nada de tão terrível ou repugnante foi conhecido nesta terra, comentava o humanista alemão Joseph Grunpeck, que confessava não conseguir agarrar o sexo com ambas as mãos, tão imenso era o seu inchaço.
Também Albrecht Dürer reproduziria imagens de doenças nas suas xilogravuras contra a Igreja Católica e escrevia: Deus me livre da doença francesa, que tanto medo me causa. Quase todos os homens a têm e muitos dela morrem!
A atribuição do mal à nacionalidade francesa tinha uma explicação lógica: surgira dois anos antes de Cesare Borgia chegar à cidade, quando Nápoles fora invadida pelos soldados e os mercenários enviados por Carlos VIII e a designação devera-a a um poema da época em que um pastor, Syphilus, enfurecera o deus do Sol e fora infetado como punição.
Só em 1905 é que se descobriria no microscópio a origem da doença: a bactéria Treponema Pallidum, provavelmente vinda, efetivamente da América, como contraponto à varíola e ao sarampo para ali levadas pelos navegadores ibéricos, e que entrava na corrente sanguínea para atacar o sistema nervoso, o coração, o cérebro e outros órgãos internos.
A verdadeira cura só se encontraria a partir de 1940 com a chegada da penicilina.
Entre o final do século XV e o início do século XX, estima-se que 1/5 da população mundial tenha sido afetada pela doença. Os que podiam comprar o silêncio e alguns limitados paliativos medicinais, fizeram-no e foi assim que surgiu a atual cultura de confidencialidade entre o médico e o paciente. Embora muitos artistas, poetas, pintores, filósofos e compositores servissem-se da doença como motivo de orgulho. Casos do conde de Rochester, de Casanova ou de Flaubert.
Muitos outros viveram-na como motivo de vergonha embora não negassem a sua evidência: Schubert, Schumann, Baudelaire, Maupassant, Flaubert, Van Gogh, Nietzsche, Wilde , Joyce e, até provavelmente, Beethoven.
Há quem avente a forte possibilidade da desintegração mental de Nietzsche ter decorrido de uma transmutação do vírus para uma forma mais problemática, a exemplo do igualmente sucedido com Maupassant , que morreu num asilo para alienados a uivar como um cão.
Por essa altura já Charcot fazia furor com os seus estudos sobre os comportamentos histéricos, que mais não seriam do que alibis para mascararem os efeitos da «doença vergonhosa».
Hoje, apesar da sifilis ainda persistir sendo contraída anualmente por milhares de pessoas, os antibióticos levam normalmente a melhor. Esses doentes dificilmente chegarão ao estado de Cesare Borgia que, no início do século XVI, recorria a uma máscara para cobrir a ruína em que se transformara o seu rosto, dantes recordado como de grande beleza.
É verdade que, o que ele perdeu em vaidade, ganhou em mistério. O seu comportamento sinistro, oscilando entre a letargia e a energia maníaca, terá resultado do impacto dessa doença? Nunca o saberemos. Ainda assim poderemos adivinhar nos muitos abortos de Lucrezia Borgia, quando vivia em Ferrara, um forte sintoma de, também ela, estar infetada!

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