segunda-feira, 6 de maio de 2013

FILME: «Huacho» de Alejandro Fernandez Almendras


Num único dia, igual a tantos outros,  uma célula familiar dispersa-se em quatro pequenas histórias de luta quotidiana pela sobrevivência.

Deste postulado muito simples o realizador chileno Alejandro Fernandez Almendras sabe retirar uma consideração modesta, mas subtil, da vida social e económica à escala das pessoas normais.

A ambição desta primeira longa metragem não se mede pela sua limitada sofisticação da história, mas pela subtileza do olhar sobre o tema aqui tratado e transmitido.

De manhã, na casa de camponeses os avós, a mãe e o filho despertam, as vozes cruzam-se e disputam-se fora do campo visual deste espaço apertado.
Após o pequeno-almoço cada um parte para o seu trabalho - seja numa pensão de turismo rural, numa escola, nos campos ou à beira da estrada - numa dissolução temporária dessa comunidade, que só se reencontrará na última cena, quando todos regressam a casa e se reúnem em torno da mesma mesa.
No entretanto, o filme acompanha pacientemente a jornada banal de cada um, sem a interromper. De facto, a montagem alternada das sequências desses quatro relatos está reduzida ao mesmo dia, que passa sucessivamente por  outras tantas vezes, mas com um ponto de vista diferente, com o protagonista a captar a atenção quase total da câmara.
Fernandez Almendras interessa-se, sobretudo pelos seres humanos, que mostra de forma quase documental. Quaisquer que sejam as gerações, o local de trabalho e a preocupação maior de cada um (vender queijos para a avó, pagar a eletricidade prescindindo do vestido que tanto se desejara para a mãe, aceder à consola de jogos para o filho ou ter o reconhecimento dos outros por parte do avô) , o que o filme revela é o comportamento do indivíduo na sociedade, mas isolado face às suas escolhas e desejos, às barreiras económicas e sociais, os pequenos compromissos e as cobardias, as desilusões a suportar e os sucessos ainda possíveis.
Na linguagem corrente do sul do Chile, “Huacho” diz respeito a pessoas ou objetos ao abandono. É a descrição feita por Fernandez Almendras do homem no trabalho: um ser fundamentalmente sozinho, que luta sobretudo por existir. O isolamento pela montagem da jornada de cada um ganha assim todo o seu sentido.
Esta perceção é talvez, e paradoxalmente, melhor suportada pelo personagem que mais escapa a esse paralelismo e às ideias do que se poderiam aceitar como verdades gerais: o avô, tema da última e mais curta parte do filme, que pôe em questão as crescentes certezas. Da família ele é o que menos se liga ao trabalho, aonde passa o dia sozinho, e cujos anseios se limitam à visita noturna à taberna aonde a família o vai buscar. Sem ser idealizado na sua solidão, ele é o que mais resiste à rotina do liberalismo acatado por toda a família, muito embora o mundo esteja a mudar tanto para ele como para os outros, ou seja, pouco.
O neto queixa-se do facto de ele contar sempre as mesmas histórias, quando à noite se reúnem à mesa, mas o dia a seguir , que se adivinha para lá do último plano, pressupõe que a luta, grande ou pequena, recomeçará para todos eles...

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