domingo, 7 de outubro de 2012

POLÍTICA: quando regressa o dia inicial inteiro e limpo?


Por muito que acredite num desígnio ideológico, há quem suspeite de incompetência para explicar os resultados clamorosos das políticas do governo. É o caso de Fernanda Câncio no «Diário de Notícias»:
Se nada mais, o Governo aprendeu um facto doloroso: que é incapaz. Que nem com uma sobretaxa em 2011, nem com o corte dos subsídios em 2012, mais o IVA a 23%, conseguiu chegar perto da meta sem recorrer a receitas extraordinárias.
Que a taxa de desemprego que previa em 13,4% no OE 2012 e atualizou em abril para 14,5% era já em agosto de 15,9%.
Que a contração do PIB que antecipava de 2,8 para 2012 e reviu em fevereiro para 3,3 foi alcançada no segundo trimestre, antes do efeito recessivo destes anúncios.
Sim, há uma coisa que Gaspar aprendeu a prever com razoável certeza: que vai falhar. 
Mas há algo em que Vítor Gaspar conseguirá cumprir as suas palavras: no combate às desigualdades entre ricos e pobres em Portugal. Pelo menos é o que espera Pedro Marques Lopes em crónica no mesmo jornal:
Claro que a desigualdade vai diminuir, vai diminuir e muito. Ficamos todos pobres com meia dúzia de ricos que vão acabar por fugir a sete pés para paragens onde possam investir o seu dinheiro. Daqui a uns meses, muito poucos, vamos perceber que o ministro das Finanças apenas acertou na questão da desigualdade. 
Mas também há quem atribua outra causa a esta acelerada queda no abismo: a completa negação da realidade! Ou seja a velha questão dos modelos em Excel não encontrarem correspondência com os efeitos previstos para emergirem na realidade.
Para Pedro Santos Guerreiro, diretor do «Jornal de Negócios», visto de fora, todo o conjunto de propostas orçamentais de Vítor Gaspar não fazem sentido:
Há momentos de descontinuidade na perceção da realidade. Como a perda de gravidade acima de uma certa altitude ou o silêncio sepulcral quando se passa a velocidade do som. O "enorme aumento de impostos" (…) parece um desses momentos. O momento em que se pára. O momento em que já nada se percebe. O momento em que as mil perguntas já não atravessam a barreira dos dentes. Pedem-nos tudo, explicam-nos pouco, prometem-nos nada. E nós, vamos à luta?
Vamos, pois! - responde Baptista Bastos no mesmo jornal:
O país de costumes brandos e hábitos morigerados" não é o bovino manso que quase todos proclamam. Basta ter um módico conhecimento de História para se saber que as coisas não ficam por aqui. E que o esticar da corda não cabe no infinito: acaba por se partir.
Só esperamos que não demore muito essa manhã, que nos devolva o sentimento descrito por Sophia a respeito da do 25 de Abril:
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

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