sexta-feira, 26 de outubro de 2012

POLÍTICA: Juízinho não é, de facto, o que é preciso!


Soubemo-lo por Durão Barroso: se a troika prolongou por mais um ano o suposto programa de reajustamento da dívida soberana portuguesa não foi por solicitação do governo de Passos Coelho - mesmo este sabendo do desvio colossal que tem nas contas do défice de 2012 - mas por iniciativa da Comissão Europeia.
Confirma-se o que já se sabia: nas reuniões com os parceiros europeus, Passos Coelho não abre a boca e Vítor Gaspar, quando fala é para descrever um cenário ficcional sem qualquer semelhança com a realidade.
Não admira, pois, que o caminho para o abismo se acelere e haja tantos jovens a fugirem para outras paragens por muito que nelas não divisem nenhuns el dorados. Como comenta Viriato Soromenho Marques no “Diário de Notícias” é a fuga legítima, por parte de quem tem força e coragem, do navio com o casco perfurado em que a política do Diretório, e dos seus delegados em Lisboa, transformou Portugal. 
Mas esta dramática sangria do capital humano do país é acompanhada de uma apreciação revoltantemente salazarenta por muitos dos nossos governantes. Esta noite, num dos telejornais, o responsável por um dos organismos destinados a pressionar mais jovens para a emigração, não tinha um pingo de vergonha na cara ao alegrar-se com o sucesso da sua ação já que os envolvidos revelavam uma “grande humildade”.
É triste reconhecê-lo, mas o fascismo não foi erradicado da mentalidade de muita gente hoje sentada nos lugares do poder. E, tal como então, consideram que - parafraseando Alexandre O’Neil - neste país no diminutivo, juizinho é que é preciso.
O escritor Baptista Bastos abordava, precisamente, a tenebrosa persistência desse lado mais negro de se ser português, ao evocar a intervenção da atriz Maria do Céu Guerra num dos programas televisivos da parte da tarde. Aí ela evocava essa inexplicável assumpção da culpa dentro de cada um de nós, como se tivéssemos qualquer responsabilidade nos desvarios cometidos pelos responsáveis políticos e nos fosse exigida a inevitável expiação: Somos "culpados" de querer ser felizes, de ambicionar viver melhor, de existir com dignidade e decência, de ter possibilidades de escolhas afirmativas. Esta nossa educação para o remorso é um dos graus da servidão exercida pelos dominantes e associa-se ao conceito religioso do pecado, que nos persegue e manieta.
Existe, no entanto, um limite para o que os portugueses estão dispostos a passar. E Pedro Carvalho lembra no “Económico” que Gaspar sabe que a tolerância dos portugueses está a esgotar-se e que o seu multiplicador de credibilidade disparou para 2. Por cada euro adicional de austeridade que anuncia, a credibilidade do ministro cai o dobro.
E o fracasso, lembra-o Pedro Silva Pereira no mesmo jornal, é uma evidência anunciada: o Governo ficou com um duplo caderno de encargos entre mãos, claramente condenado ao fracasso e simplesmente inaceitável por qualquer pessoa de bom senso: fazer um orçamento para 2013 que será insuportável do lado da receita e fazer um orçamento para 2014 que será impraticável do lado da despesa. Não há economia, nem Estado Social, que resistam a um programa louco como este. Nem creio que haja Governo, em democracia, que o possa executar.
Estamos perante um fogo de barragem à classe média mas - lembra-o Daniel Oliveira no “Expresso” - , sobretudo, aos mais pobres, cada vez mais empurrados para a insustentabilidade de uma sobrevivência cada vez mais impossibilitada: Sim, é verdade que estamos a assistir a um ataque sem precedentes à classe média. Mas seria bom não nos fecharmos no nosso pequeno cantinho. O ataque aos mais pobres é ainda mais brutal. Porque, neste caso, estamos a falar da sua própria sobrevivência física.
Esperemos que  não leve muito tempo a devida resposta dos portugueses a quem os continua a julgar humildes e dispostos a ainda mais sacrifícios...

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