sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A direita a querer a revisão dos manuais de História

A exemplo do que vimos suceder nos Estados Unidos, onde o Partido Republicano foi sendo tomado de assalto por hordas sucessivas cada vez mais conotadas com posições de extrema-direita redundando na caricatura grotesca personificada por Trump, também em França as primárias para as eleições presidenciais do próximo ano estão a mostrar uma tendência progressiva da direita em se radicalizar.
Exemplo disso é a competição entre candidatos dessa área - Sarkozy, Le Maire, Fillon - em imitarem a família Le Pen na proposta de uma revisão profunda da História ensinada nos manuais escolares para dela extirpar a perspetiva negativa da colonização e da escravatura, substituindo-a por «heróis positivos», que permitam aos jovens gauleses identificarem-se com uma visão grandiosa do país. A começar em Carlos Magno, passando por Joana d’Arc e culminando em De Gaulle.
Tenta-se, pois, operar uma alteração da narrativa histórica a partir da escola, que é pressentida como o local aconselhável para iniciar uma nova Involução Cultural.
Entre nós a História tem sido bastante mistificada por gente como José Hermano Saraiva ou, mais recentemente, Rui Ramos. A que interessaria conhecer - e que incluiria o papel fundamental dos portugueses na exploração do tráfico esclavagista, na nefasta influência do clero no desastre de Alcácer-Quibir ou nos crimes da Inquisição! - ainda está por tornar melhor conhecida dos jovens estudantes. É tão importante sublinhar as páginas de grandeza como esclarecer as de miserável mesquinhez.
Mas se a moda francesa pega lá voltaremos aos autodesignados historiadores do «Observador» a empolarem os heróis e a esquecerem quem deles foi vítima. Sempre com pin da bandeira ao peito e o hino gritado sempre que se presta a ocasião.
No caso francês valha a honestidade de reconhecer que o candidato menos assustador de entre os que competem à direita, o atual presidente da Câmara de Bordéus, Alain Juppé, já se dissociou dessa programada revisão da História. E essa não é a única diferença que fazem dele a menos má alternativa para substituir o execrável Hollande...



(Jacques Louis David)

1 comentário:

  1. Sempre me fez confusão o facto de a personalidade preferida dos Franceses ser Napoleão, que é o exemplo perfeito do déspota cesarista (que aliás conseguiu o que Júlio César não atingiu por causa daquela altercação nos Idos de Março). E isto porque supostamente a França é a Pátria da Liberdade e dos Direitos do Homem. Não que o Corso não tivesse qualidades, a começar pelo seu génio militar e a acabar na fundação das grandes Escolas e no legado do Código Civil, assim como a integração dos Judeus na Sociedade Francesa. Mas sendo o seu Império um Império Liberal, não deixava de ser o regime de um só homem... Mas essa ambiguidade dos Franceses, que também se revelou no reacionarismo do seu Catolicismo e que culminou com a França de Vichy (e que se manteve nessa coisa estranha que se chama V República, criada à imagem do Marechal de Gaulle) é que talvez explica o sucesso da FN...

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