Peguemos numa hipótese académica: e se, de repente, depois de ameaçar com cortes ainda mais obscenos nas remunerações dos funcionários públicos e nas pensões de reforma e com aumentos de impostos para todos os portugueses, o governo desse uma volta de cento e oitenta graus e começasse a distribuir benesses? Não as que se perderam entretanto, mas umas migalhas suficientes para alimentar as ilusões dos desesperados?
Imaginemos um cenário em que o BCE continua a intervir no mercado de forma a baixar os juros, facultando aos passoscoelhos do sul da Europa a mentira propagandística de tal realidade se dever aos prodígios das suas ações.
E que, cientes da impossibilidade de irem mais longe, por agora, - sob o risco de causarem uma tal reação social que deite tudo a perder - na desproporcionada relação social entre quem manda e quem trabalha, os artífices de toda esta conspiração neoliberal criem um clima propício a embarcar as multidões de eleitores em novas ilusões?
Estará a esquerda preparada para a muito financiada campanha de quem, por televisões, jornais e internet, espalhará a notícia de já se terem alcançado todos os objetivos pretendidos com a austeridade - e bem demonstrados nos juros baixos nos «mercados» e no reequilíbrio das balanças comerciais - e ser altura de colher os proveitos de tantos sacrifícios?
Avidas como estão de boas notícias não seria fácil voltar a arregimentar multidões desalentadas para novos amanhãs que cantam, agora substituindo os retratos de Lenine ou de Estaline pelos de Hayek ou de Milton Friedman?
Falta de empregos? Que ideia: com crédito fácil e adequada orientação, cada um poderá criar o seu próprio emprego e alcançar os benefícios de ser patrão! Até porque, depois de tanto dinheiro gasto em autoestradas, escolas e outras minudências, o dinheiro europeu passará a vir às catadupas para a promoção do crescimento económico - esse conceito que se possa substituir à proscrita austeridade - sob a forma de negócios baseados em bens tangíveis.
É certo que, para uns quantos, voltarem a ascender socialmente á categoria de classe média empresarial, todos os outros deverão manter-se precarizados em empregos de miséria, mas para que são tentados a adaptar-se sem resistências, já que, depois de tanta penúria, se concluiu quanto é bem melhor ter um emprego, mesmo que miseravelmente pago, do que nenhum!
E assim, se contará com uma estrato de contenção, espécie de barreira social, entre os que verdadeiramente continuarão a enriquecer, e a grande maioria cada vez mais condenada à miséria, ao analfabetismo, à inacessibilidade à saúde.
É claro que, dias depois de revelado o sinistro relatório elaborado por técnicos do FMI a mando do governo, este cenário académico ainda soa a ficção científica. Mas não nos iludamos: depois de ter puxado a corda quase até estoirar, os estrategas da ideologia neoliberal não estão cegos, nem a dormir! Eles sabem que já recuperaram muito do que a Revolução de Abril, o Maio 68 francês e outras movimentações sociais destinadas a dar sequência às aspirações igualitárias dos povos, os fez perder. E seguirão a lógica de dar um passo atrás, antes de poderem saltar dois para a frente na sua agenda para uma sociedade tal qual aspiram.
E será bom que a esquerda, quer socialista, quer comunista, quer bloquista, não se limite a pensar no imediato em que a prioridade passará sempre pelo derrube deste governo. Porque não duvidemos que, mesmo ganhando a próxima batalha, será torpedeada de forma tão competente, que dificilmente conseguirá unir-se em torno do mínimo denominador comum. A menos que estes ou novos líderes, que nela se revelem, compreendam que esta vai ser uma guerra prolongada e para a qual será conveniente trabalhar nas alianças imprescindíveis em vez de se desgastarem em querelas fraticidas só benéficas para quem tem as armas apontadas no outro lado das barricadas...
Na 'mouche'!
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