domingo, 15 de outubro de 2017

A importância de regenerar a Política

A quinta temporada de «House of Cards» foi-me penosa de seguir porque, refletindo o estado pútrido da política americana comprovado na eleição de Trump, contribui para a consolidação da peregrina ideia de não existir quem seja isento de corrupção nos meandros de Washington - precisamente a mensagem ideológica, que o atual presidente inoculou no seu ignaro eleitorado de forma a dar-lhe ensejo para a revolução ultrarreacionária de que se faz orgulhoso expoente.
Do Arkansas ao Texas, do Alasca ao Mississípi, uma significativa percentagem do eleitorado achou ajustada a ideia de pôr os políticos da capital com trela conduzida por um sinistro anjo exterminador.
As últimas décadas, sobretudo depois da queda do muro de Berlim, facilitaram a tese do fim das ideologias, restringindo a política aos jogos de poder entre interesses plutocráticos e sem escrúpulos.
Infelizmente o mundo da social-democracia e do socialismo democrático foi tomado de assalto por gente da estirpe de Blair, Schroeder, Gonzalez ou Hollande, que puseram de lado os princípios fundamentais de tal corrente do pensamento ideológico e contaminaram o respetivo espaço à esquerda com a promiscuidade dos negócios instalados.
Frank e Claire Underwood, apoiados numa máquina administrativa colocada ao seu serviço e não dos cidadãos, perseguem objetivos estritamente pessoais, que nada têm a ver com as obrigações constitucionais sob que prestaram juramento. Como os citados exemplos «socialistas», mas não só, pois basta pensar em Portas e Barroso para concluir como a estratégia é transversal a todos os partidos do poder e comportam quem entra para a política para dela se servir escusando-se ao interesse coletivo, que deveriam priorizar.
É por isso que Bernie Sanders  - apesar de ostensivamente ignorado pela cúpula do Partido Democrata - assume importância tão fundamental na regeneração das instituições por agora sequestradas pelos políticos republicanos. Porque, quer desse, como deste lado do Atlântico, importa revalorizar, se não mesmo regenerar, a Política, devolvendo-lhe a nobreza de quem dela faz a expressão do bem comum.
Não admira, pois, que o velho senador do Vermont tenha imposto a ideia socialista como eixo da sua candidatura à Casa Branca. Porque essa recuperação dos valores éticos no exercício de cargos públicos implica afastar de vez a ideia de não existirem diferenças entre esquerda e direita, ou já estarem fora de moda os preceitos analíticos propostos pelo marxismo.
Estamos, precisamente, no momento em que importa voltar atrás, retomar a mesma bandeira e sabê-la empunhar por novas direções, diferentes daquelas que, ilusoriamente, deveriam fazer-nos aproximar da Utopia e dela nos afastaram...

1 comentário:

  1. A Utopia original de Moore correspondia a uma sociedade gerida à custa de engenharia social em que nem eu nem o meu caro por certo gostaríamos de viver. E as Utopias que se lhe seguiram não andaram longe disso. Se for preciso matar no presente em nome do futuro, faça-se, como bem ilustra o exemplo da Revolução Russa de Outubro, de que agora 'celebramos' o centenário. As instituições do Liberalismo Político, onde se insere a Social-Democracia, pelo contrário, aceitam o caráter contingente e falível da ação política, procurando dividir o poder de modo a evitar abusos, característicos da nossa natureza humana. É isso que hoje à Direita e à Esquerda está sob ataque, pois os diversos ramos do Populismo desejam substituir a nossa Democracia Liberal e os seus 'checks and balances' por uma 'Democracia Maioritária' onde o Povo é, claro está, sempre representado por um qualquer homem forte (excluo Sanders dessas tentações, porque ele na realidade é um bom social-democrata e nada mais do que isso). Fazem-no utilizando o argumento de que as instituições que temos foram capturadas por uma elite económica, o que é em parte verdade, só que isto foi de facto sempre assim. O que torna as ditas instituições vulneráveis é o acumular de crises (financeira, económica, de refugiados, no Médio-Oriente). Por isso, todos os autocratas em potência veem chegada agora a sua hora. Parece-me que foi Frank Herbert, no seu Dune, que disse que todas as formas de Governo tendem a evoluir na direção da oligarquia. Estamos talvez a assistir aos primeiros passos das democracias ocidentais nessa direção...

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