domingo, 22 de outubro de 2017

A excentricidade vs. a racionalidade

No verão dos meus dezasseis anos vi-me sujeito a fortes restrições por conta do relativo fracasso escolar, porquanto passara para o sétimo ano do liceu com chumbos a matemática e a filosofia. A severidade do castigo passava por me ver impedido de ir à praia ou continuar a dar cabo das solas dos sapatos nas peladas com os amigos, obrigando-me a estudar de forma a recuperar o atraso suscitado pela inédita condição de semi-cábula.
Estava-se em 1972 e a alternativa era fechar-me no escritório lá de casa e pôr o transístor em som muito baixo para não suscitar a atenção pidesca da minha mãe. A ordem era para me dedicar aos mistérios da trigonometria ou do cálculo vetorial, sem esquecer o manual de psicologia, que constituía o programa do ano escolar entretanto concluído. As notícias projetavam-me então para um dos grandes acontecimentos desse ano de 1972: na Islândia estava a decorrer o jogo do século entre Bobby Fischer e Boris Spassky.
Como era época de Guerra Fria, uns pendiam para o lado norte-americano, eu e muitos outros desejávamos a vitória do soviético.
Entre 11 de julho e 1 de setembro fui acompanhando as vicissitudes do movimento das peças no tabuleiro, antipatizando com a excentricidade de Fischer e irritando-me com a falta de imaginação de Spassky, aparentemente incapaz de sair da racionalidade dos movimentos canónicos para corresponder eficazmente às originalidades do adversário.
Lembrei-me desse verão de há quarenta e cinco anos atrás a propósito do confronto não declarado, mas óbvio nos bastidores, entre Marcelo e António Costa. É que os jogos de xadrez, como muitos outros, prestam-se a pertinentes metáforas sobre cada momento político.
No discurso de Oliveira do Hospital, Marcelo parece ter posto o primeiro-ministro em xeque. Embora adivinhassem que a jogada muito distava do almejado xeque-mate, as direitas e os comentadores a ela enfeudados regozijaram-se com a perspetiva de verem Costa em dificuldades.
Desconfio, porém, que Marcelo teve, então, o seu momento islandês - não esqueçamos que Fischer e Spassky disputaram as partidas desse campeonato em Reiquiavique - e que a capacidade de se sentir vitorioso quedar-se-á por aqui. Sobretudo, porque se continuar a apostar na excentricidade de ser um Presidente, que deixa a gravitas em casa para andar de terra em terra a distribuir afetos e a tirar selfies, a receita esgotar-se-á perante os três anos, que aí vêm, presumivelmente marcados pelo sucesso das políticas económicas, financeiras e sociais do governo e, sobretudo, com a desejável prevenção de novas tragédias através da implementação das políticas ontem aprovadas em Conselho de Ministros extraordinário. É que, se Marcelo iguala Fischer no comportamento pouco convencional para a função que representa, António Costa lembra Anatoly Karpov em vez do cinzento Spassky. A racionalidade, a frieza com que encara os problemas e lhes garante as melhores soluções, abrem expectativa para duradoura vida útil dos seus governos ao contrário do «número» habitual de Marcelo cujo efeito de novidade acabará por atingir a sensação de «tudo quanto é demais, também enjoa».
Esta semana ele desmentiu-se a si mesmo, porque deixou em aberto a possibilidade de concorrer a um segundo mandato. Eu não esqueço que, em campanha eleitoral para as presidenciais de 2016, afiançara o contrário. Mas todos conhecemos a sua tendência para a volubilidade, quase tão intrínseca quanto a indissociável obsessão pelos cálculos políticos. Tal como Fischer se recusou a voltar a jogo em 1975, quando anteviu a provável derrota face a Karpov, também não me admiraria que essa venha a ser a opção de um esgotado Marcelo. 

2 comentários:

  1. Volubilidade? Só? Pois eu, "cá por mim", acho que ele é mas é mesmo aldrabão.
    E daqui não saio.

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  2. Quem foi "estrela" não quer que o brilho se dissipe na espuma dos dias. O povo pede um afago mas que traga junto algo de real às vidas tocadas pela tragédia. Nada em Marcelo é feito ao acaso. Isso é apanágio dos espíritos simples. Deseja ser amado, desejado e, às vezes, sai-lhe um desabafo narcisista como aquele de... "então não veio cá ninguém, veio o Presidente, não é bom" ? Fosse o 1º. ministro ou um membro do Governo e os jornais tinham a frase na 1ª. página e a abrir telejornais!
    A empatia manter-se-á até que os cidadãos não a sintam como um "olá e até logo" ! A minha aposta é que Marcelo quer desafiar a história com sendo o "melhor, mais popular, mas humano, mais fraterno, mais amigo dos Presidentes. Quererá ser até considerado "santo" e com entrada no "livro dos records" como o mais beijoqueiro no planeta e herói das selfies ". Entretanto está no tempo útil do mandato, dados os dramáticos acontecimentos deste Verão em Portugal. Um 2º. mandato não será um passeio mas uma consistente definição dos seus propósitos e ele, pelo contrário, prefere as manobras entre as várias peças do tabuleiro politico. E ai......não há Marcelo disponível, pelas incógnitas que isso acarreta !

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