sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Mesmo com reservas, estou com os independentistas catalães

Após semanas sucessivas em que vimos Mariano Rajoy a revelar os piores tiques franquistas, o PSOE foi procurando escapar por entre os pingos de chuva sabendo-se condenado pela exacerbação da xenofobia castelhana se não se fizesse idiota útil da agenda política do PP, e em que Puidgemont mostrou um tacticismo a raiar o aventureirismo, a Generalitat declarou a independência da Catalunha. E a minha posição continua a mesma da que aqui assumi semanas atrás: até por se constituirem como uma República, os catalães têm a minha simpatia garantida. Continuo a defender que, depois de tudo quanto aconteceu na Guerra Civil a imposição da dinastia dos Bourbons como soberanos da Espanha pós-franquista constituiu um derradeiro vómito do execrável ditador.
Há também a questão da justeza ou não de uma nação com língua e cultura próprias transformar-se num Estado independente! Até por termos estado séculos a fio ameaçados pelo expansionismo castelhano deveremos mostrar-nos assertivos com um povo, que só se manteve sob a bota do seu opressor, porque entre o seu flanco a leste e o situado a ocidente, os filipes acabaram por optar pelo primeiro, dando-nos o ensejo de restaurar a independência em 1640.
É certo que a Europa, à exceção da Escócia, está renitente quanto ao reconhecimento da vontade expressa pela maioria dos eleitos catalães. Mas, desde quando tem a União Europeia alguma legitimidade para condenar esta declaração de independência depois de todos os golpismos, que fomentou ou apoiou para que a Jugoslávia se estilhaçasse em vários países distintos?  Ou como criou as condições para que a Ucrânia viesse a ser o atual Estado tomado de assalto pelas milícias nazis?
Os próximos dias serão problemáticos, mas mesmo que imponha o diktat de Madrid pela força, Rajoy arrisca-se a ver alguém a repetir o que Unamuno disse em tempos a Millan-Astray: «Venceréis, pero no convenceréis» . E, vista à distância, a História veio a tornar o filósofo no vencedor tardio da guerra de que o autor da frase «Viva la muerte» seria apenas aparente e efémero conquistador.

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