terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Quem não se sente não é filho de boa gente!


Excelente o texto de Marisa Morais, hoje inserido no «Público», em que a autora declarou ter ficado deliciada com a resposta de António Costa a Assunção Cristas na Assembleia da República. Porque, embora o CDS continue a pretender usar o despique em seu favor - e esse inenarrável Telmo Correia assim o fez para as televisões no dia de ontem! - a verdade é esta: quem não se sente, não é filho de boa gente. Ora se há apontamento interessante na biografia do primeiro-ministro é o de ter tido por pais um escritor e uma jornalista dos mais meritórios entre os que combateram o salazarismo-marcelismo. Já dos pais de Assunção Cristas pouco mais se sabe do que o terem sido retornados de Angola, sem imitarem muitos dos que de lá vieram e se integraram no pensamento democrático e anticolonialista, que a Revolução de Abril consagrara.
O fulcro da questão é, porém, outro, aquele que Marisa Morais aborda: António Costa respondia a uma pergunta indecente, claramente provocatória, da interlocutora, porque alguma vez se vira um primeiro-ministro ser interrogado no parlamento quanto a apoiar ou desapoiar atos de vandalismo, quando eles ocorreram? Porque haveria António Costa de ser o primeiro? Que tem ele de diferente em relação aos predecessores? A resposta quanto à cor da pele surgiu como perfeitamente natural perante quem nasceu e cresceu num ambiente colonialista, em que a supremacia dos brancos sobre os «indígenas» - como o Estado Novo crismou as populações efetivamente naturais no seu suposto império! - era o discurso e a prática oficial.
O comportamento mal-educado da criatura só pode ter esse recôndito preconceito na mente: por muito que procure iludir o racismo, que procura ocultar nas meninges, ele surge inevitável, quando depara à sua frente com um primeiro-ministro que a irrita por ser muito inteligente, irrepreensivelmente competente e, ainda por cima, com um tom de pele que não tem o seu imaculado tom.

3 comentários:

  1. Cristas està muito mal posicionada para criticaro o Sr Dr Antonio Costa,esta Sra não merece o minimo de consideracão,na praça da Ribeira à gente com mais dignidade e que merece mais respeito que a Sra Cristas,basta ver de onde veio e que iducação teve a não ser ter o Africano como escravo,esqueceu se que atualmente està em Portugal e não na Africa

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  2. Parabens pelo excelente texto que me foi dado ler.

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  3. Ora bem, assino por baixo, só foi pena Costa não ter usado da palavra para esclarecer exatamente isso. Por que deveria um PM de um estado democrático não condenar a violência? Só se fosse realmente por causa de uma qualquer solidariedade em torno do tom de pele e nesse caso, a Dra Cristas presumiria que os não-brancos defendem todos a resistência violenta, coisa que faria dela, exatamente, uma pessoa racista.

    E note-se, a resistência violenta pode até justificar-se, como quando os povos das ex-colónias pegaram em armas para se defenderem da opressão salazarista. Mas seguramente não na situação atual... Aliás, se olharmos para os EUA, verificamos que os maiores progressos nos direitos civis se fizeram pelo protesto pacífico.

    Espero por isso que os nossos concidadãos que se sentem discriminados, e não falo apenas por motivos de cor de pele, encontrem uma voz de protesto... Porque se a chegada ao poder de um PM de origem indiana e de uma ministra da Justiça negra (e de um secretário de Estado de etnia cigana e de uma secretária de Estado cega) marcou sem dúvida a quebra de um teto de vidro na representação política, os incidentes recentes, assim como a linguagem na fachoesfera, mostram bem que o racismo está bem vivo em Portugal.

    O que a líder de um Partido Democrata Cristão deveria evitar, ela que não tem problemas (e ainda bem) que um dos seus vice-presidentes seja assumidamente gay, era vir com perguntas provocatórias e idiotas que ainda por cima mancham a imagem que quer transmitir de uma política moderna e inspirada nos valores sociais da ICAR...

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