quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O golpe, que precede a invasão imperialista


Não é que tenha qualquer simpatia por Nicolas Maduro, mas as reações de certas esquerdas sobre os eventos dos dias mais recentes correspondem à falta de memória histórica sobre o que significa imperialismo. Porque é disso mesmo que se trata, como se viu na reação de Donald Trump à declaração do golpista Guaidó, minutos depois dele a ter proferido em Caracas.  Se os dois acontecimentos não estavam concertados dificilmente se encontraria maior coincidência. Eles enquadram-se no que se perspetiva como lógico: tendo-se formado o chamado grupo intervencionista de Lima, o Pentágono só precisa que eles disponibilizem uns quantos militares para darem a aparência de legitimidade a uma invasão, que pretenda impor a «legalidade democrática» no país de Chávez. Quanto tempo faltará para que ela se verifique? Aposto que não muito, ainda que o México, a Rússia e a China se tenham colocado ao lado de Maduro.
O que está na origem da crise é muito simples: o subsolo venezuelano contém reservas petrolíferas em maior quantidade do que a própria Arábia Saudita. Como poderia o imperialismo norte-americano prescindir de tal maná? Daí que, há muitos anos - desde que Chavez se tornou presidente! - tenha alimentado sucessivas intentonas e boicotes, para devolver o poder aos seus aliados locais. A representação da CIA na Venezuela deverá ser das mais significativas de quantas estão ativas em diversas latitudes para prosseguirem os seus objetivos conspiratórios.
Ademais a sustentação do barril de petróleo em valores muito baixos tem como objetivo sabotar as economias dos que o mesmo Pentágono elege como seus principais inimigos - a Venezuela (e por arrasto Cuba), o Irão e a Rússia.  Tombado regime chavista e, tão rapidamente quanto possível, o dos ayattollahs, aí veremos um novo choque petrolífero, que encha ainda mais lautamente os cofres dos plutocratas das grandes multinacionais norte-americanas do setor.
Com este enquadramento é lamentável ouvir as declarações de Augusto Santos Silva (embora se limite a secundar a imprudente posição europeia!) ou de Pedro Filipe Soares. Porque, na prática, estão a mostrar-se cúmplices do golpismo da direita venezuelana e do seu aliado Trump, colocando-se ao lado do jagunço brasileiro, que se julga com legitimidade para definir quem, no país vizinho, é mais ou menos democrata.

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