quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Menos democracia, mais Democracia


Nos últimos anos ruíram diversos dogmas, que pareciam à prova de bala. Hoje já poucos arriscarão defender que a gestão privada dos vários setores de atividade é mais competente, menos corrupta e produz melhores resultados do que se eles estivessem na órbita estatal. A mistificação, que nos quiseram vender a respeito da suposta genialidade dos Bavas, dos Rendeiros ou dos Salgados só serviu para que, por imposição de Bruxelas, tudo se privatizasse, espoliando-se as finanças públicas dos lucros oriundos de tais empresas, impondo aos governos, que se dedicassem a gerir um Estado mínimo com os impostos passíveis de serem por si coletados. Os CTT são apenas um exemplo de referência para um tipo de empresa, que dava lucro e foi vergonhosamente entregue a interesses privados. É por isso que, quando as direitas exigem menos impostos, e, em contraponto execram sequer a possibilidade de reversão de muitas das nacionalizações do passado, só estão a pretender que as funções do Estado na educação, na saúde ou na segurança social, se convertam num negócio chorudo para os patrões que representam.
O facto de, em sucessivos atos eleitorais, a extrema-direita chegar ao poder através do exercício formal da aparente democracia em que temos vivido, justifica que se coloque uma de duas hipóteses: ou não é a menos má forma de organização das nações como defendia Churchill - porque nunca por ela os Hitlers, os Trumps ou os Balsonaros deveriam ter acedido à desgovernação dos seus povos - ou não pode ser apenas aferida como existindo pelo facto de estar instituído um conjunto reduzido de aparentes liberdades - a de expressão, a de imprensa, a de existirem múltiplos partidos, etc.
Sabendo-se que essas falaciosas liberdades apenas estão ao alcance de quem possui o capital - vide o controle da informação dos vários jornais, rádios  e televisões pelos interesses dos que são seus proprietários - podemos considerar que o sistema em que vivemos seja mais democrático do que nos execrados regimes do Leste Europeu da segunda metade do século transato, onde os cidadãos eram convidados a participarem ativamente nas organizações ditas comunistas? Alguém negará que, tendo em conta o número imenso de militantes nos partidos em causa, havia então mais participação dos cidadãos nas políticas dos seus países do que hoje sucede com os seus netos ou bisnetos? E alguém se atreverá a considerar que a Hungria ou a Polónia de hoje são mais democráticas do que quando nelas mandavam os partidos ditos comunistas?
Se a Democracia é o poder do povo, para o povo e pelo povo, não se pode restringir ao gesto—, fútil como agora se constatou nos EUA, no Brasil ou na Andaluzia! -, de uma maioria manipulada de eleitores de quatro em quatro anos. A Democracia tem de ser muito mais do que isso, envolvendo uma participação cívica com sentido crítico e escrutinador dos atos de quem recebe mandato para assegurar a gestão dos interesses coletivos. Ora, nas décadas mais recentes, através da ilusão consumista assente nas modas ou da transformação de instrumentos mediáticos com vocação formativa em instrumentos de manipulação deformadora das mentes, os cidadãos foram impelidos para a abulia ou para se converterem em mentecaptos prontos a iludirem-se com coisas tão inócuas como selfies ou abraços.
Chegamos a uma fase crítica da História em que o desafio coloca-se entre esta falaciosa democracia, que nos querem vender como desejável, e a Democracia com maiúscula, onde cada um sinta o dever de participar ativamente nas dinâmicas coletivas devidamente estruturadas nas organizações para tal vocacionadas, sejam elas os partidos políticos, os sindicatos ou as associações de todo o tipo, que trabalhem em prol do bem público.

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