quinta-feira, 19 de abril de 2018

Nos quarenta e cinco anos do Partido Socialista


Em 1985 estava na Comissão de Trabalhadores da Soponata, quando cresceu a evidência de um fim de ciclo para os governos liderados por Mário Soares, seguindo-se quase por certo um domínio dos partidos da direita coligados na AD. Se a esquerda era sociologicamente maioritária nas sucessivas consultas ao eleitorado, a sua divisão demoraria a resultar na maioria parlamentar que, nestes últimos dois anos e meio, tem sido a garantia do nosso (mesmo que relativo) contentamento!

Essa Comissão integrava pessoas, que tinham andado pela extrema-esquerda e militantes socialistas que, dois anos antes, tinham apostado numa alternativa ao até então domínio do Partido Comunista, que se mostrava mais interessado na prevalência da lógica aparelhistica do que em defender efetivamente os interesses dos seus representados.
Foi por convite de um desses socialistas, que assinei a ficha de militante, situação nunca mais alterada nestes trinta e dois anos entretanto decorridos, mesmo se, nalgumas alturas, o meu entusiasmo esmoreceu com lideranças - sobretudo a de António José Seguro - que me faziam ponderar se estava, efetivamente, no Partido coincidente com as minhas convicções.
Houve, porém, sempre algo que me fez manter a militância: nunca deixei de dizer, quer nas suas reuniões internas, quer nas direcionadas para simpatizantes e outros cidadãos em geral, aquilo que verdadeiramente pensava. E ninguém me veio sugerir (ao contrário de um crítico habitual dos textos deste blogue), que deveria mudar de partido. De facto desde a primeira hora em que fui aceite como militante socialista, sempre defendi que o Partido é feito pelos militantes, cabendo-lhes definir as suas lideranças e orientações políticas. Posso, por exemplo, não subscrever a profissão de fé, que muitos fazem na social-democracia, já que me revejo sobretudo no ideário socialista inspirado nas teses marxistas, mas tive de aceitar que o PS fosse durante muitos anos tomado por um anticomunismo cujo primarismo tanto me incomodou em certas alturas, escusando-se assim a avançar por alternativas às direitas, que só Jorge Sampaio na Câmara Municipal de Lisboa, e mais recentemente António Costa ousaram enfrentar.
Hoje, muito embora haja muita coisa que detesto no que vejo internamente no PS - sobretudo a elevada percentagem dos tais “boys”, que nele militam apenas, porque a sua mediocridade intelectual e profissional, não lhes permite encontrar melhor futuro no exercício de profissão correspondente aos seus parcos currículos na sociedade civil (vide a maioria, que continua a dominar a Concelhia do Seixal, onde tenho residência!) - vivo um dos momentos mais gratos da minha vida de militante socialista. Porque deteto no seu interior uma percentagem significativamente superior de quem acha que os acordos de governação devem ser procurados preferencialmente à esquerda e não junto dos representantes dos que apostam em mais desigualdade e precariedade na vida dos que só contam com a força do seu trabalho para sobreviverem.
Falta mudar muito no Partido que faz hoje 45 anos, a começar pelo facto de não se dissociar tanto dos seus eleitores: quão frequente é encontrarmos nas ações de campanha das últimas semanas antes de qualquer tipo de eleições, as pessoas a confrontarem-nos a com justa acusação de só as procurarmos, quando buscamos o seu voto?
Muito embora a aposta numa cidadania responsável devesse mobilizar muitas mais pessoas para dentro dos partidos e movimentos políticos - evitariam assim a nossa resposta de não terem legitimidade para criticar se se escusam a participar na ação política onde se decide, efetivamente, o seu futuro! - cabe aos partidos da atual maioria parlamentar irem-lhes ao encontro, propondo a sua visão para a melhoria das respetivas condições de vida e, sobretudo, auscultando-lhes as inquietações e aspirações. Porque não podemos esquecer que a ascensão dos populistas, que grassam por essa Europa fora muito deve a essa sensação de ninguém mais os ouvir senão aqueles que apostam em torná-los tropa fandanga dos seus ínvios propósitos.
É por isso que, mesmo apreciando os grandes jantares sob tendas gigantes, os seminários e conferências sempre destinados aos já convencidos, o desejado sucesso político da atual maioria parlamentar passa fundamentalmente por, desde ministros e deputados até aos militantes de base em que me incluo, não esqueçamos as ruas e nelas nos façamos continuamente presentes.
É esse sentimento que justifica a satisfação por já passarem 45 anos sobre a data da fundação do meu Partido, desejando que ele encontre as soluções, que o inibam de tombar no declínio, aparentemente irremediável, que definhou os seus parceiros europeus, mesmo aqueles, que como no caso francês, grego, alemão ou sueco, pareceram insuperáveis na capacidade para, em momentos determinantes da história dos seus povos, os saberem conduzir com clarividência e competência.

2 comentários:

  1. António JOSÉ Seguro, de má memória...
    No resto, de acordo!

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  2. Jorge Rocha, se o PS impedisse os seus militantes de emitirem opiniões críticas e contra-corrente, nunca mais levava o meu voto. Gosto dele como Partido plural que é.

    A minha provocação tem um objetivo distinto, fazer-lhe lembrar que não é por ter feito uma coligação à Esquerda que o PS (e António Costa em particular) deixou de subscrever os princípios da social-democracia e da pertença de Portugal à UE e à NATO, contrariamente ao que às vezes o meu caro parece querer dizer. Os críticos alinhados com o PCP, como João Rodrigues, sabem isto muito bem, mas não têm coragem de sugerir o fim da Geringonça...

    As posições de um Santos Silva ou de um Centeno não são só deles. São do Governo. Não há cá um Dr. Costa e um Mr. Centeno ou Santos Silva. O Governo tem uma linha muito consistente e não de todo esquizofrénica...

    O meu caro terá que admitir que a sua linha de argumentação, crítica dessas posições, se coaduna mais com uma militância no BE do que no PS. Agora, o que irá fazer, é consigo, bem entendido.

    É que me parece, desculpe-me que lhe diga, que tem tendência a tomar a nuvem por Juno. Quem me dera que o PS tivesse margem orçamental para ser capaz de implementar políticas verdadeiramente social-democratas. Neste momento, a política do PS é social-liberal (no tempo de Sócrates era pior, porque este embrulhava a política com os negócios como a nomeação do inenarrável Vara para a CGD, por exemplo, mostra). Ponto final.

    Não vale pois a pena vir para aqui dizer que contrariamente aos seus congéneres europeus, o PS sobrevive porque decidiu dar uma guinada à Esquerda. Não, não decidiu. Os parceiros de Esquerda, pelo contrário, é que toleram uma solução governativa de carácter centrista, porque tiveram a inteligência de perceber que tal era preferível a obrigar o PS a apoiar um Governo PàF II, mesmo que isso conduzisse ao definhamento eleitoral dos socialistas e lhes permitisse eventualmente beneficiar dos despojos eleitorais do PS em futuras eleições.

    Registe-se, aliás, a inteligência tática de Costa que, em lugar de, como Sanchez em Espanha, ter afirmado que não viabilizaria o Governo da Direita (para depois ser destronado por causa disso), ter dito justamente que não o inviabilizaria se não dispusesse de uma alternativa.

    Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, pelo seu lado, devem ter olhado para o resto da Europa e percebido que os Partidos mais à Esquerda tipicamente não ganham quase nada com as perdas eleitorais dos Social-Democratas. O que deveria ser óbvio para quem é capaz de perceber que existe um eleitorado flutuante ao Centro que nunca votará nos Comunistas ou no BE. Vota PS, PSD ou abstém-se.

    Convém pois que olhemos para a realidade sem ilusões. O PS mantém-se como Partido charneira do sistema justamente por causa da sua posição centrista. As dificuldades presentes do PSD advêm, isso sim, da guinada à Direita de Passos Coelho...

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