sábado, 28 de abril de 2018

Dois séculos depois o pensamento de Karl Marx está vivo e recomenda-se


Em 5 de maio iremos celebrar o bicentenário do nascimento de Karl Marx, efeméride que nos desafia a atualizar a sua análise do capitalismo e das lutas de classes à luz deste presente em que a globalização e a financeirização das economias baralharam as contas dos que apostavam num determinismo histórico, que se cumpriria em iminentes amanhãs que cantassem.
Vimos muitos esquerdistas desencantados mudarem de campo, abjurarem as antigas convicções, ainda que, paradoxalmente, se viessem a revelar tão dogmáticos nas teses contrárias quanto o haviam sido nas que lhes tinham iluminado as tardias adolescências. Mas só nos podemos congratular com essa autodepuração, que fez diminuir o ruído num espaço de pensamento onde importa potenciar a lucidez, a clareza de espírito.
Para os que não se renderam ao pensamento dominante nos órgãos de informação - inteiramente nas mãos de quantos pretendem retardar tanto quanto possível a concretização de uma sociedade mais justa e igualitária! - a recuperação urgente da metodologia analítica proposta por Marx, para a aplicar ao atual momento histórico, torna-se um imperativo. Porque pode englobar os contributos segmentados de tantos investigadores, que detalham os sintomas do mal estar social e os associam a causas muito precisas, mas as não enquadram em razões mais a montante, inevitavelmente relacionadas com o trabalho convertido em mercadoria e no capital cada vez mais ganancioso na acumulação das mais-valias.
Um bom estímulo para a reflexão pode ser a programação do canal franco-alemão neste sábado porque exibe «Karl Marx, Pensador Visionário» de Christan Twente ao início da noites, seguindo-se-lhe o documentário «De Marx aos Marxistas» de Peter Dörfler.
Mario Adorf veste a personagem de Karl Marx no primeiro desses filmes, que tem a filha do filósofo, Eleanor, como narradora, iniciando-se em 1882, quando, entre sucessivas viagens e já adoentado, ele sentia-se exaurido pela escrita do segundo volume do «Capital», uma obra que o ocupara durante duas décadas. Voltando ao passado vemo-lo evocar sucessivamente a juventude romântica, o casamento com a brilhante aristocrata Jenny von Westphalen e o frutuoso exílio em Paris, antes de passar por tempos assaz difíceis em Bruxelas e em Londres. No meio das sucessivas reconstituições da vida do homenageado, vão surgindo biógrafos, historiadores e economistas para acentuarem as suas fulgurantes propostas, sem escamotearem algumas das suas contradições.
A proposta de Peter Dörfler aborda as diversas aplicações das teorias marxistas no último século e o quanto elas permanecem vivas hoje em dia. De Atenas a Pequim, de Berlim a Paris, escalpelizam-se não só os regimes soviético, chinês, cubano ou leste-alemão, mas também os diversos movimentos ocorridos em 1968 em França, na Alemanha, nos EUA. Hoje os críticos mais argutos do capitalismo financeiro não dispensam as orientações marxistas, aplicando-as à interpretação dos acontecimentos atuais.
Quem tiver arriscado, que o marxismo se convertera numa teoria obsoleta, depressa se dará conta de quão exagerado fora o seu anúncio de dobrar a finados...

1 comentário:

  1. Eu quase que poderia assinar por baixo o que escreve, Jorge Rocha.

    Salvaguardando o carácter distinto do capitalismo industrial nascente e do atual capitalismo financeiro quando este exerce a sua atividade dentro de Estados-Providência, poderia dizer-se que a análise do capitalismo feita pelo filósofo de Triers preserva a sua relevância.

    De notar, que num mercado imperfeito e fora-de-equilíbrio, o capital dispõe de outros métodos de obtenção de lucro que não a mais-valia do trabalho, até porque tais mais valias são restringidas pela imposição, por exemplo, de um salário mínimo ou da existência de subsídios de desemprego que permitem que o proletário não tenha que vender o seu trabalho ao preço determinado pelo mercado.

    Alguém fazia notar recentemente que sistemas que protegem os direitos laborais obrigam a mais inovação, o que deveria ser óbvio.

    Infelizmente, os capitalistas, que pretendem sempre seguir o caminho mais fácil, em lugar de perceberem que existem vantagens na existência de direitos sociais alargados, pretendem justamente atacar os existentes, sob a capa das 'reformas estruturais'.

    Sucede que é impossível falar de Marx sem falar da herança do Socialismo e essa é, infelizmente, uma pesada herança. Os Socialistas deveriam, se se quiserem libertar de tal fardo, reconhecer o carácter central da Liberdade Política enquanto mecanismo de auto-correção da ação política.

    Infelizmente, ao fim de quase dois séculos, o fulcro do pensamento continua a ser a 'democracia económica', sacrificando se necessário a dita Liberdade Política pelo caminho...

    ResponderEliminar