quarta-feira, 25 de abril de 2018

A justa evocação de Abel Salazar neste 25 de abril


As comemorações do 25 de abril também servem para evocar a abissal diferença entre o antes e o depois dessa data. Porque mesmo não tendo sido o jackpot então esperado a nível das expetativas criadas por quanto tudo mudaria na paz, no pão, na saúde, na educação, ficámo-nos por uma terminação, que nos alimenta, sobretudo, a ideia de lá vir o dia em que o objetivo primeiro é cumprido.
O que havia antes desse dia inicial inteiro e limpo só alguns senis idolatram apoiados nuns jovens estarolas, que, por o serem, não deixam de ser perigosos o bastante para merecerem o tratamento das ervas daninhas. A uns e a outros deveria impor-se o suplício por que passou o Alex da «Laranja Mecânica», sendo obrigados a ver horas a fio o episódio de «Visita Guiada» em que Paula Moura Pinheiro apresenta a Casa-Museu Abel Salazar. O episódio foi transmitido na passada segunda-feira e dá conta do brilhantismo incomparável de um homem de exceção a quem o seu oposto homónimo destratou de forma ignóbil.
Em breves palavras Abel Salazar foi um aluno brilhantíssimo, que concluiu o curso de Medicina com nota máxima, chegando a catedrático aos 26 anos. Investigador de exceção adivinhou nos microscópios de então  as descobertas celulares, que só os mais modernos, os eletrónicos, viriam  a confirmar.
Foi ele quem tornou a Faculdade de Medicina do Porto uma entidade universitária de referência a nível internacional, não só pela qualidade dos laboratórios, que fez montar, mas, sobretudo pela relevância científica dos trabalhos ali concluídos e reportados. Igualmente como professor inovou com a implementação de práticas - os alunos convidados a, eles próprios, prepararem as aulas e locionarem-nas aos colegas - só generalizadas décadas mais tarde.
Foi por tudo isso que, em 1935, o regime o expulsou do ensino e proibiu-lhe a entrada no laboratório, que funcionara até então como uma segunda casa. Pior ainda, priva-o do passaporte, impedindo-o de manter o contacto regular com tantos amigos que fizera em fóruns científicos por toda a Europa e lhe tinham merecido o convite para integrar o comité de seleção do Prémio Nobel.
Nos onze anos, que se seguiriam até à sua morte, ele nunca deixou de estar presente nas grandes manifestações cívicas contra a ditadura, ao mesmo tempo que mantinha atividade plural nas artes e nas letras, sendo presença constante em tertúlias de intelectuais portuenses.
Quando o cancro o levou em 29 de dezembro de 1946 o regime temeu a dimensão do funeral (foto ao lado), que o acompanharia de Lisboa até ao Porto, prendendo o cadáver de forma a impedi-lo de ser homenageado em Coimbra e antecipando o sepultamento no Cemitério Prado do Repouso, sem permitir o velório público preparado para a Associação dos Jornalistas da cidade invicta.
Comportando-se dessa forma para com um  opositor, que era o seu exato contrário - se Abel era inteligente, talentoso e visionário, o António de Santa Comba Dão excedia-se em mesquinhez, mediocridade e vistas curtas - o regime demonstrava a sua essência indubitável.
Para os portugueses, que sofreram com os seus crimes, o salazarismo fascista foi uma catástrofe, que explica em boa parte o nosso ainda persistente subdesenvolvimento...

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