segunda-feira, 30 de abril de 2018

Recordar maio 68 (5): Poder para a imaginação


Na mais recente edição da «The New York Review of Books», surge uma entrevista a Daniel Cohn-Bendit assinada por Claus Leggewie e intitulada «1968: Poder para a imaginação».

Embora o conhecido anarquista alemão mantenha um posicionamento anticomunista tão ambíguo, quanto era o seu cinquenta anos atrás, a peça jornalística revela-se bastante interessante logo nas primeiras linhas, quando contextualiza o célebre diagnóstico do editor-chefe do «Le Monde» em 15 de março, segundo o qual a França se entediava, enquanto noutras latitudes (EUA, Alemanha) estalavam revoltas pujantes contra os respetivos governos. Essa exceção francesa deixava perplexo Viansson-Ponté, que esquecia a enorme greve já entretanto ocorrida na Universidade Paris-Nanterre em prol de reformas administrativas.

Aos 23 anos Cohn-Bendit era ali aluno de Sociologia e não tardaria a, oito dias depois do célebre editorial, promover a ocupação do edifício da Administração. Ele e os demais líderes do movimento intuíram que estavam a fazer história, sendo protagonistas, e não figurantes, das transformações pressentidas para o futuro imediato.
Acontece então uma das imagens icónicas dos acontecimentos desse maio: a do irreverente desafio de Cohn-Bendit face a um polícia-de-choque em frente à Sorbonne.
Estava-se a 6 de maio e o ministro do Interior ordenara uma ação musculada contra a ocupação da Universidade, o que suscitou uma enorme manifestação estudantil apoiada pelos professores, entre os quais Alain Touraine.
Numa só imagem condensam-se os aspetos mais relevantes do que estava em causa: a juventude contra o regime envelhecido, o herói contra o vilão, o poder contra o antipoder, a ordem contra a anarquia.
Cohn-Bendit, que nunca mais voltou à universidade, considera tal imagem a sua tese de doutoramento, porque lhe deu a notoriedade de ícone da revolta. E congratula-se por, a cinquenta anos de distância, um recente inquérito promovido por Raphäel Gluckmann para o «Nouveau Magazine Littéraire» ter concluído serem 60% os franceses a associarem coisas positivas ao sucedido há cinquenta anos, desmentindo os conservadores ligados ao catolicismo mais beato, que lamentam as consequências nas antigas instituições do casamento, da família ou da ordem pública. Dois terços identificam-se com o slogan «É proibido proibir», ao qual elogiam a qualidade poética e o significado intrínseco da mensagem.
Na entrevista, a que voltaremos por conter outras abordagens interessantes sobre o fenómeno, Cohn-Bendit acredita subsistir uma cultura inconformada no imaginário coletivo das gerações que sucederam aos que, em 1968, andaram á procura de praias por baixo das pedras da calçada.

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