quinta-feira, 26 de abril de 2018

As razões do meu voto na Moção de António Costa


Escrevi-o há dias e volto a reitera-lo: daqui a uma semana, quando participar na votação para o 22º Congresso do Partido Socialista, apoiarei sem qualquer rebuço a Moção “Portugal 20/30”, subscrita por António Costa que o responsabiliza pela liderança para novo mandato.
Faço-o, porque só os politicamente cegos ou mal intencionados negarão que, nestes dois anos e meio “o Governo melhorou a vida dos portugueses, a economia e o emprego, e restabeleceu a confiança”, virando “a página da austeridade, respeitando em simultâneo os compromissos internos e internacionais e recuperando a economia, o emprego, as finanças públicas e a credibilidade internacional.”
O documento está organizado em quatro eixos, todos eles fundamentais no futuro que se perspetiva a médio e longo prazo: a sociedade digital, as alterações climáticas, o desafio demográfico, e uma sociedade menos desigual.
Aposta-se em que as ferramentas digitais não podem ser instrumentalizadas para se converterem numa ameaça à democracia.
Aponta-se a recente seca extrema de grande parte do território nacional como  prova dos efeitos das alterações climáticas  a serem contrariadas por políticas ativas, nomeadamente nas da gestão da água disponível e das condições dos solos cultiváveis.
Procurar-se-ão criar postos de trabalho, que compensem os efeitos da robotização e da digitalização na organização e no conceito de trabalho. Segundo as previsões da OCDE podem desaparecer nos próximos anos 14% dos atuais empregos e ser alterado significativamente o perfil de especialização em 32%.
Haverá que contrariar a tendência para a anunciada redução da população, de dez milhões para sete milhões, que poderá pôr em causa a sustentabilidade do modelo social em vigor. Além de políticas de incremento à natalidade, assume a necessidade de atrair e receber mais imigrantes.
E propõe-se a aposta na educação, na saúde, na liberdade e na segurança, que contrarie e expetativa de 0,1% da população mundial deter 25% da riqueza em 2050, quando em 1980 esse indicador era ainda de 10%.
Promete-se, em suma, uma sociedade mais aberta e inclusiva da diversidade, rejeitando a xenofobia, o racismo e a intolerância.
Quanto à moção, que se opõe à por mim apoiada, e que propõe primárias para todos os candidatos a cargos políticos, abertas a simpatizantes, não é para levar a a sério: Daniel Adrião e os seus apoiantes ainda não colheram a lição do sucedido noutros países europeus, onde os Partidos Socialistas foram praticamente erradicados dos respetivos mapas políticos com essa perversa inovação.
Mas não posso concordar, de modo algum com Hugo Pires, quando defende a irrelevância de sedes locais do PS por radicar no mundo digital a atenção privilegiada das gerações mais novas. É verdade que esses espaços não devem servir apenas para os militantes  reunirem ou jogarem às cartas em frente à televisão. O desafio deveria ser o de as transformar em locais ativos de concentração de militantes disponíveis para daí saírem frequentemente ao encontro das populações em mercados, estações de transportes e outros espaços públicos, onde pudessem ouvir-lhes os anseios e preocupações e dar-lhes as alternativas credíveis nos patamares de decisão onde possam ser satisfeitos.

3 comentários:

  1. Obrigado pelo excelente resumo da moção de Costa, firmemente ancorada, pelos vistos, no reformismo social-democrata. O PS vai continuar a merecer o meu voto por muitos e bons anos, enquanto prosseguir nesta via.

    Só não consigo compreender a sua posição, Jorge Rocha, que faz aqui uma defesa sem mácula de tais pontos de vista para depois vir dizer noutros posts que quem neles verdadeiramente se revê, anda afinal iludido.

    Deve ser isto também aquilo a que Álvaro Cunhal chamou flexibilidade tática e rigidez estratégica, pois claro...

    ResponderEliminar
  2. "Governo melhorou a vida dos portugueses" - melhorou porque a Geringonça a isso obrigou, caso contrário não teria melhorado, apenas se tinha contentado em travar, temporariamente, a degradação. Esta é real natureza do PS, e a razão pela qual estes partidos estão a desaparecer da face da Europa.

    "Governo melhorou (...) a economia" - melhorou porque a Geringonça obrigou a mais estímulos (ex: devolução de rendimentos) e porque obrigou a deixar cair a traidora (porque vinda de um partido "socialista") reforma da TSU de Centeno e Costa. E porque com conjunturas favoráveis, todos os santos ajudam.

    "Governo melhorou (...) o emprego" - continua a publicar a mentirosa estatística do emprego oficial de 8%, em vez da estatística do desemprego real (que o INE chama subutilização do trabalho) que ainda está nos 16% (e chegou a 29% no tempo do "ir além da troika". Chamam-se "socialista" e deitam foguetes com 16% de desemprego? Ao que o fanatismo €uropeísta obriga... se não se podem ter políticas de pleno emprego (veja-se a República Checa ou a Dinamarca fora do €), então deitam-se foguetes com base em estatísticas manipuladas para Eurostat ver.

    "Governo (...) restabeleceu a confiança" - a confiança subiu acima de tudo no Parlamento, segundo a Pordata. A confiança no governo tem vindo a cair, à medida que Costa falha na governação, que Centeno mostra a real cara por trás da máscara, e que os defensores do Centrão (ex: Augusto Santos Silva) vão preparando caminho para acabar com a Geringonça. E o que dizer da confiança do governo por parte dos parceiros no Parlamento? Ele é voltar atrás nas votações (ec: vergonha dos CMEC), ele é alterações na meta do défice de forma unilateral (e veja-se como fica o Estado do SNS sem o necessário investimento), ele é ver records de cativações (e veja-se o Estado calamitoso dos serviços públicos), etc.

    "virando a página da austeridade" - lá que a austeridade não está a aumentar, é uma coisa. Que até melhorou ligeiramente para alguns sectores (ex: função pública, e trabalhadores com Salário Mínimo) também é certo. Agora que a página virou, eu vou ali e já venho... A reversão do aumento colossal do IRS está por fazer, o IVA continua astronómico, todos os anos há aumentos e novas taxas e taxinhas, e a prioridade não está a ser o país e os portugueses, mas sim uma meta ABSURDA do défice zero, quando há N estudos (ex: há um recente da OCDE), literatura económica, e casos práticos, que mostram que num país como Portugal, a dívida, em % do PIB, desceria mais depressa (!) com um défice superior ao atual, caso esse défice (ex: 2.5%) fosse inteiramente usado para investimento público reprodutivo (que, fora as PPP, está nos 0.5% do PIB!!!) e ainda por cima com juros negativos e historicamente baixos!

    "respeitando (...) compromissos internos" - já mostrei a mentira desta afirmação coim diversos exemplos nos pontos anteriores, mas dou mais exemplos: onde está o respeito dos compromisso internos, quando a Constituição diz que a saúde deve ser tendendialmente gratuita, e as taxas moderadoras (que são só 1% do orçamento da saúde e comprovadamente só têm efeitos práticos negativos) só desceram no 1º orçamento? Onde está o respeito pelos compromisso internos quando se vê que o modus operandi dos ministérios é ir adiando as medidas acordadas com a esquerda (ex: regularização dos precários) e prometidas ao eleitorado (ex: concurso dos médicos no SNS), só para adiar custos e fazer brilhar o Centeno no €urogrupo?

    ResponderEliminar
  3. "respeitando (...) compromissos (...) internacionais" - em que é que isto pode ser considerado positivo por parte de um partido dito "socialista"? Respeito da NATO e das sucessivas violações da paz só para mero deleite da estratégia terrorista de Washington? Respeito do Tratado Orçamental e todas as suas regras NEOLIBERAIS, ou seja, ANTI-sociais-democratas? Respeito da livre circulação de capitais da UE, e como tal compactuar com a evasão e "otimização" fiscal, os off-shore, os escândalos dos paraísos fiscais, e a concentração anti-democrática de riqueza nas mãos das oligarquias mundiais, num Mundo cada vez mais desigual graças a isto? Respeito pela Zona Euro e todos os seus atropelos que desgraçaram a Grécia e quase iam desgraçando Portugal? Respeito pela Zona Schengen e por todo o crime e tráfico que se faz nas nossas fronteiras escancaradas (veja a notícia sobre a quantidade de apreensões no dia em que a nossa fronteira esteve vigiada aquando da visita do Papa)? Respeito pela livre circulação de bens que nos inundou de "Made in China" ou Sudeste asiático, feitos por autênticos escravos, e que levou à maior dívida externa (pública e maioritariamente privada) de sempre em Portugal, que teve de empobrecer para fazer face a isto pois dentro do €uro não resta outra alternativa?

    "as alterações climáticas (...) seca extrema" - está a falar do mesmo governo que recusou, apesar de toda a pressão pública, RECUSOU acabar com os contratos de exploração de petróleo na nossa costa? E do mesmo governo que recusa atuar com mão de ferro (ou pelo menos alterar a legislação para permitir essa atuação) contra TERRORISTAS ambientais como a Celtejo? O mesmo governo que atrasou a implementação do diploma (em violação da confiança da esquerda) aprovado para reverter a liberalização do Eucalipto, e que como resultado, viu acontecer o maior aumento de sempre da área plantada com esta praga?

    "o desafio demográfico (...) políticas de incremento à natalidade" - como se resolve isto num país em que o governo se recusa a reverter as malfeitorias no código do trabalho e no arrendamento, que estão a baixar salários e a condenar as novas gerações à precariedade, a viver em casa dos pais, e a não ter qualquer possibilidade de constituir família?

    Meu caro Jorge Rocha, eu gosto de ler o que escreve, sou apoiante da Geringonça, e para mim, o cenário ideal após 2019, é um trio BE+PS+PAN, sendo eu eleitor do BE uma vez que sou Social-Democrata-Verde, e continuo desconfiado da natureza de Terceira-Via (Neoliberalismo disfarçado que está a matar os PS pela Europa fora) que ainda existe no PS e com o qual António Costa convive bem.
    Dito isto, não podia deixar de lhe dar esta "porrada" de contra-factual, tal é a irritação que me provoca o seu seguidismo em relação ao PS (o qual até disse que não tem, num post anterior, mas tem, e muito).
    Não tenho dúvidas que a moção de António Costa terá mais coisas boas que más, e que é a melhor alternativa atualmente existente para militantes como você. Mas uma coisa é a militância com crítica construtiva, outra bem diferente é o seguidismo acrítico que explanou neste texto.

    PS: este site, nomeadamente o acto de "Publicar" um comentário, não funciona bem nos browsers Firefor e Opera. Tive de usar Internet Explorer. Veja lá se consegue resolver isso.

    ResponderEliminar