quarta-feira, 11 de abril de 2018

É capaz de não ser boa ideia prescindir de quem tem apoiado o governo


Não fosse a evidente necessidade de investimento avultado na saúde e na educação até poderíamos estar de acordo com a ambição de Mário Centeno em superar os compromissos europeus reduzindo o défice deste ano de 1,1% para 0,7%, que serve, sobretudo, para reeditar a tese do «bom aluno», em tempos tão danosa para a qualidade de vida dos cidadãos.
Só que esses 600 a 800 milhões de euros sonegados ao investimento público para que Centeno brilhe ainda mais junto dos colegas do Eurogrupo são bem necessários para compensar a degradação dos serviços públicos suscitada pelos efeitos da desgovernação dos que pretenderam ir para além da troika. Tem sido, aliás, indecorosa a campanha dos últimos dias a propósito do Hospital São João tendo em conta as responsabilidades da anterior coligação governamental no estado calamitoso agora empolado pelos suspeitos do costume.
Embora arriscado, porque suscetível de implicar uma forte penalização eleitoral, que o Bloco já conheceu há sete anos, quando colaborou ativamente no chumbo do PEC-4 e facilitou a tomada do poder por Passos Coelho, o alerta quanto à impossibilidade de existir um «Governo de minoria absoluta» deve ser levado a sério. A menos que Centeno aposte na abstenção do PSD quando for altura de votar o Plano de Estabilidade, que a Assembleia irá apreciar dentro de alguns dias.
De um e de outro lado a corda tende a esticar e não é certo que qualquer dos lados tenda a beneficiar com uma eventual rutura numa questão de tal substância. Porque a maioria parlamentar ficaria definitivamente posta em causa e a possibilidade de levar a legislatura até ao fim poderia ver-se comprometida.
Falando com muitos dos apoiantes da atual maioria parlamentar a eventual substituição do Bloco e do PCP pelo PSD seria muito mal vista por muito que Marcelo acenda velinhas para que isso suceda. O Bloco Central pode ter alguns defensores dentro do PS - com o notório exemplo de Francisco Assis - mas não é esse por certo o sentimento maioritário dos seus militantes e simpatizantes. Razão para que Centeno não deva olhar com tão aparente sobranceria para os ainda parceiros parlamentares...

1 comentário:

  1. A questão, Jorge Rocha, não é de sobranceria. Repare que a descida do défice faz-se, aparentemente, sem violar nada do que foi acordado com os parceiros da Esquerda, tão somente devido ao bom desempenho económico e à descida da taxa de juros.

    E aqui é que Centeno tem toda a razão. As poupanças com juros são possíveis porque Portugal aparece perante os mercados como o tal 'bom aluno', goste-se ou não da expressão. São eles que nos emprestam dinheiro...

    A descida do défice e o desejo do abaixamento rápido do montante da dívida são exemplos, isso sim, de pensamento keynesiano do mais puro. Aproveitam-se as fases de crescimento para apertar o cinto e consolidar as finanças, para sermos capazes de fazer face a embates futuros.

    Quem enche a boca tanto com soberania deveria entender isto. Não vale a pena aproveitar a folga presente para subir pensões e salários se formos obrigados a reverter tudo quando surgir uma nova crise.

    E não vale a pena sonhar com uma renegociação da dívida que não se faça nas condições que os credores nos quiserem impor se e quando julgarem que não temos condições para a pagar, isto dentro ou fora do Euro (como aconteceu sempre que tivemos que a fazer, pois as bancarrotas foram frequentes durante a nossa História) . Nesse dia, que virá depois de uma crise que ninguém deseja, exceto talvez Passos Coelho, as pessoas irão ter saudades da austeridade de Vítor Gaspar...

    O desejo, mesmo que legítimo, de abrir os cordões à bolsa representa, isso sim, miopia política...

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