domingo, 1 de abril de 2018

A grande, mas perigosa, jogada de Theresa May


Se houve alguma veracidade nas suspeitas da interferência russa no Brexit e na eleição de Trump, é caso para considerar que Vladimir Putin deverá estar a dar tratos à cabeça de como se terá redondamente enganado com os putativos aliados que escolheu.
No entanto a descoberta da sabotagem protagonizada pela Cambridge Analytica e financiada por alguns dos bilionários norte-americanos mais interessados na vitória das extremas-direitas ocidentais como forma de deitar abaixo o periclitante edifício das instituições democráticas assegurando maiores lucros com ditadores populistas entretanto empossados, justifica a suspeita dessa suposta ciberguerra vinda dos lados de Moscovo ter igual espessura (ou seja nenhuma!!!) à da existência de arsenais de armas químicas no Iraque de Saddam Hussein.
Tudo no caso Skripal cheira a esturro e importa que por ele nos não deixemos iludir.
Comecemos por uma primeira constatação: este “oportuno” atentado ocorre na mesma altura em que são crescentes os sinais de nervosismo da direita inglesa quanto à possibilidade de Jeremy Corbyn ganhar as próximas eleições. Há poucas semanas inventaram a tese dele ter sido espião a soldo da Checoslováquia nos tempos do Pacto de Varsóvia. Quase por certo congeminada na sede do MI-6, essa difamação mais não constituiu senão uma remake de outras acusações similares em tempos formuladas contra outros grandes dirigentes trabalhistas: Harold Wilson, Michael Foot e Neil Kinnock.
Daí, como reconhece Miguel Sousa Tavares no «Expresso», a ânsia do governo inglês em agitar a ameaça russa como forma de credibilizar uma suspeita, cujo fundamento está longe de estar demonstrado. Recordemos que até o Supremo Tribunal inglês recusou tomar como hipótese a responsabilidade russa no sucedido apesar das pressões de Theresa May para que a  subscrevesse.
Na sua coluna desta semana diz MST: “É estranha a importância dada ao caso Skripal (…) em contraste com o primeiro ataque cibernético demonstrado às democracias ocidentais. É curiosa esta prioridade vinda de um Governo que só está em funções devido à vitória do Brexit e com um ministro dos Estrangeiros, Boris Johnson, que foi o seu principal defensor e que agora compara Putin a Hitler e o Mundial de Moscovo aos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, mas que se cala sobre a vergonhosa hipótese de o seu querido Brexit ter sido afinal pior do que o roubo das joias da Coroa. E é curiosa esta inflamada - e bem sucedida - busca de solidariedade dos parceiros europeus, por parte de quem se prepara para orgulhosamente dispensar tais parceiros.”
As direitas que pressionam o governo para que expulse diplomatas russos (e que teria por imediata consequência a inoperacionalidade da nossa embaixada em Moscovo reduzida a menos dos atuais três elementos quando a retaliação sobreviesse!) revelam a característica que o mesmo comentador atribui aos grandes deste mundo, responsáveis pelo quanto ele está tão perigoso: “O mundo não é apenas mais perigoso hoje porque temos armas com uma capacidade de destruição como nunca tivemos e focos de conflito espalhados e criados voluntariamente por toda a parte. É-o também porque os grandes do mundo nunca foram tão destituídos de valores e de vergonha”
No mesmo semanário Daniel Oliveira alinha na mesma lógica, explicando o caso com as conveniências conjunturais de Theresa May: “Mata três coelhos de uma cajadada: mostra que o Reino Unido não está isolado depois do Brexit; obriga a União Europeia a uma resposta descoordenada; e livra-se da suspeita da influência russa que ensombrou o referendo e que, por causa do caso Cambridge Analytica, voltou a dominar o debate público”
O governo russo age bem ao exigir ao Foreign Office o ónus da prova: é que o argumento de se tratar de um químico inventado na Rússia nada comprova. O que impediria os laboratórios dos serviços secretos ingleses de o replicarem e testarem de forma a criarem uma crise internacional, que só beneficia o indefensável governo de sua majestade?

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