domingo, 6 de dezembro de 2015

O mau perder pàfista

Extrato de artigo de Pedro Marques Lopes no «Diário de Notícias»:

Espero que com o debate sobre o programa do governo e a votação da moção de rejeição se comece a discutir política. Que o governo governe e que as oposições se oponham. O que não pode voltar a acontecer é o triste espetáculo a que assistimos na quarta e na quinta-feira.
Perder o poder não será fácil. Perder o poder quando ainda se está a comemorar a sua manutenção ainda mais difícil deve ser. Talvez seja por isso que tem havido tolerância com o já famoso discurso da falta de legitimidade do atual governo. Mas já se foi longe de mais. O que vários deputados do PSD e do CDS fizeram na Assembleia da República não foi nem menos nem mais do que uma falta de respeito pela própria instituição a que pertencem. Assistir a um deputado a dizer que há um primeiro-ministro não eleito é algo que só pode ter duas explicações: ou não sabe ao que concorre quando aceita ser candidato a deputado ou, sabendo, quer enganar as pessoas que o ouvem. Eu podia passar um certificado de ignorante ao cavalheiro, mas sei que ele conhece a Constituição.
Não há quem não conheça a ânsia de agradar, a vontade de personagens secundárias serem mais papistas do que o papa. Já o que não é tolerável é um ex-primeiro-ministro e um ex-vice-primeiro-ministro fazerem as lamentáveis cenas de nem sequer se dirigirem a António Costa como primeiro-ministro ou fazerem piadinhas com vírgulas. Estadistas não insultam os mandatos dos deputados. E pessoas com as responsabilidades passadas e presentes de Passos Coelho e Paulo Portas não podem desrespeitar o Parlamento. O PSD e o CDS são pilares fundamentais da nossa democracia, são partidos institucionalistas, não podem e não devem, por nenhuma razão, cair num discurso de caixa de comentários dum qualquer facebook.
Seja como for, não se percebe onde se quer chegar com a conversa de mau perdedor. Nada mais razoável do que contestar as políticas que o governo quer prosseguir, nada mais legítimo do que exibir as divergências latentes entre os vários partidos que suportam este governo e fazer que eles se desentendam, nada mais claro do que anunciar que se tentará derrubar este governo o mais depressa possível, nada mais honesto do que exigir eleições logo que constitucionalmente permitido. Tudo isso faz parte da democracia, do normal funcionamento das instituições democráticas.
O que o discurso da ilegitimidade não dará ao PSD e ao CDS é qualquer legitimidade acrescida ou qualquer tipo de razão especial se este governo cair por falta de solidez dos apoios que hoje aparenta ter. Se o governo não conseguir manter-se em funções será porque os representantes do povo assim o decidiram, como decidiram agora viabilizá-lo. Só e apenas.
Esta espécie de estratégia de rapazinho a quem tiraram a bola não pode durar muito, claro está. Um partido como o PSD terá de ter uma oposição que mostre um caminho alternativo, mas ficará esta mancha dum tempo em que se mostrou não se saber lidar bem com as regras da democracia representativa, em que o partido não honrou o seu passado e deixou uma memória que pode sair-lhe cara no futuro.

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