quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O dilema de Pacheco Pereira

Deve Pacheco Pereira sair do PSD? Por vontade de muitos dos seus companheiros de partido isso já deveria ter acontecido há muito tempo tendo em conta a forma ácida como se manifestou contra a governação de passos coelho nos últimos anos. Mas ele está longe de lhes fazer a vontade na esperança de vir a contribuir para a mudança necessária num partido, que extremou a sua mensagem política e é hoje muito mais próximo dos republicanos do “Tea Party” do que dos valores sociais-democratas, que continua a ostentar na sua designação.
Ao contrário do que eu próprio vivi entre 2011 e 2013, quando a liderança socialista estava muito aquém do que desejaria que fosse, não acredito na bondade da decisão de Pacheco Pereira em ficar, Enquanto nesses dois anos se sentiam existir alternativas consistentes para infletirem um rumo que Seguro nunca soube propriamente pilotar, o PSD de hoje é um vazio onde não sobram ideólogos capazes de o fazerem sair do torpor austericida em que se deixou encerrar.
Chegado ao poder com o respaldo da troika, passos coelho nunca se deu ao trabalho de criar outras ideias, que não as do pacote ideológico servido pelos técnicos do FMI, do BCE e da Comissão barroso. E, qual eucalipto, secou tudo quanto estava à sua volta. Hoje ouvem-se os comentários políticos de marques mendes, manuela ferreira leite ou morais sarmento - inclusivamente de marcelo rebelo de sousa, quando ainda não se declarara candidato presidencial! - e só neles cabe a lógica da intrigazinha estéril sem ideias concretas, que sirvam de alternativa às que a direção laranja continua sem ter.
Manifestamente o centro político nacional tende a consolidar-se no PS, que poderá enriquecer a ação governativa com as ideias pertinentes sugeridas à sua esquerda. Porque essa é a grande diferença entre os dois extremos entre os quais o PS se equilibra: enquanto a direita está acéfala, não faltam à esquerda as propostas dignas de serem atendidas.
Sobra, porém, um problema: se ouvirmos os discursos dos patrões - desde a CIP à CAP passando por aquelas associações mais ou menos anónimas, que só cavaco parecia conhecer para lhe servir de altifalante à saída das reuniões de Belém - grande parte do patronato está, igualmente, cristalizado numa visão profundamente radical do que devem ser os seus direitos e deveres. A forma como pretendiam transformar o Concelho de Concertação Social numa espécie de órgão com poder de veto sobre tudo quanto o governo decidisse, diz bem da excessiva influência, que ganharam nos últimos anos.
Uma das principais tarefas a ser cumprida pelo governo de António Costa deverá ser o do reequilíbrio de forças e de rendimentos entre o fator capital e o fator trabalho. Porque nenhuma sociedade democrática digna desse nome pode aceitar que caiba a uma minoria abastada a parte de leão do poder e do rendimento nacional, enquanto a grande maioria esteja condenada a “comer e calar”.
Provavelmente a irreverência ideológica de Pacheco Pereira seria mais coerente se adotasse a pose definitiva de um pensador independente, disposto a não permitir que a sua continuidade no PSD lhe dê o alibi para ainda se julgar um partido pluralista.

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