domingo, 24 de fevereiro de 2019

Os zombies andaram por aí...


Em 1968 George Romero pregava-nos valente susto, quando dois irmãos eram atacados por um zombie num cemitério. Doravante não pararia de nos amedrontar com tais monstros até 2009, quando assinou o derradeiro título da sua filmografia. Pelo meio andou a alertar-nos para a importância de olharmos para esses filmes como sendo bem mais do que entretenimentos enquadrados no género do terror. Denúncia do capitalismo, esclarecia ele e, de facto, olhando para «Terra dos Mortos» (2005) com merecida atenção, está lá tudo quanto um empedernido marxista possa evocar sobre os malefícios do sistema económico baseado na exploração das mais valias inerentes à transação de mercadorias.
Fica, assim, explicada a razão porque aprecio os filmes de Romero, mesmo que insuportáveis nas escabrosas cenas em que os zombies se deliciam a provar os corpos dos ainda vivos. Dá para perceber que são monstros terríveis, que convirá serem circunscritos às suas sepulturas.
Não é isso que, porém, vai acontecendo, como pudemos constatar nas notícias dos últimos dias. Da algarvia urbanização da Coelha um, de Massamá outro, dois mortos vivos saíram do respetivo recato e vieram assombrar-nos com os seus gestos trôpegos e palavras inaudíveis. Uns supostos jornalistas andaram a conjeturar o que disseram, mas não ficou provado que tenham tido substantivo significado o que das suas bocas se ouviu. Por mor das dúvidas aos arquivos e reciclaram algumas coisas requentadas, mesmo que com odor entre o mofo e o fétido.
Porque eram só dois não suscitaram grande sobressalto: das tumbas vieram, a elas voltaram, sem grandes males que se reportassem. Mas justifica-se a atenção a muitos outros, que possam engrossar-lhes a virulência. Nessa altura convirá regressar à obra de Romero e recordar a melhor forma de os devolver definitivamente à procedência.

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