segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A propósito da «lumpenpopulação» que as direitas radicais atraem

Se há «comentadeira» política, que cuido logo de silenciar, quando a vejo perorar numa das nossas televisões, é Maria Fátima Bonifácio. Tudo nela me desagrada, desde aquele ar professoral de «nerd» retardada ao correspondente tom ríspido da voz, de quem está zangada com tudo e com todos - a começar por ela própria! - concluindo-se nas ideias, que roçam o reacionarismo mais abjeto.
Eis senão que Francisco Louçã, no artigo de sábado no «Expresso», chama a atenção para um texto dela em que, não dizendo propriamente uma novidade para quem, da perspetiva de esquerda olha para a realidade, se torna surpreendente novidade para quem arrumamos liminarmente à direita: que esta mesma área ideológica está a radicalizar-se mediante a atração do que, muito apropriadamente, designa como «lumpenpopulação».
Este conceito tem muito a ver com o utilizado por Hillary Clinton durante a campanha eleitoral de 2016, quando designou por «deploráveis» os apoiantes de Donald Trump. E voltou a estar na ordem do dia nas recentes eleições brasileiras, quando vimos indigentes mentais, na maior parte alienados pelas igrejas evangélicas, porem-se ao lado do jagunço saído das trevas para trazer até à ribalta política as suas trogloditas opiniões.
O que Assunção Cristas, Santana Lopes ou André Ventura procuram é apoiar-se nesse tipo de eleitorado despolitizado, facilmente permeável a preconceitos grotescos, mas facilmente difundidos pelo jornalismo de sarjeta ou até por programas televisivos de entretenimento, que não se escusam a entrevistar notórios fascistas.
Junto de muitos amigos tenho subestimado a importância da atividade de Steve Bannon a partir de Bruxelas, onde criou uma sede da sua organização, ou de Roma, onde conta com a amizade de Salvini ou Di Maio, mas começo a vacilar nessa convicção, quando surgem de repente movimentos inorgânicos em França (coletes amarelos) ou um partido de extrema-direita em Espanha (Vox), que se alicerçam nessa camada de «lumpenpopulação» desejosa de empossar governos musculados, que trate dos mais miseráveis do que eles próprios são, na expetativa de se sentirem um pouco menos incomodados nas suas frustrações.
Que Maria Fátima Bonifácio teorize sobre o assunto pode significar que uma certa direita - muito conservadora nos costumes e liberal na economia - comece a ficar incomodada com a emergência de uma elite diferente daquela a que julgava pertencer. Porque olha-se para aquela gente, que esteve ontem e anteontem em Évora a secundar Santana Lopes e, excluindo uns quantos marginalizados do PSD, o que se vê neles é o virem do nada e ansiarem tudo, inclusive os cargos políticos que tanto verberam quando ocupados por outros, mas em que se sentiriam muito confortados se a si coubessem.
É claro que, num ou noutro contexto, com os antigos donos disto tudo, ou com os que aspiram a sê-lo, os ganhadores continuariam a ser sempre os mesmos: as grandes multinacionais com os seus plutocratas, que vão enriquecendo ainda mais, enquanto gozam de bancada, as disputas fomentadas juntos dos que, se se agregassem sensatamente em torno dos seus interesses, virariam armas na direção correta.
Num célebre livro do Asterix, Júlio César procurava conquistar o último reduto do seu império, semeando a zizania entre os gauleses. Estamos, precisamente, nessa fase da História humana: para adiarem o mais possível a morte do capitalismo, os seus principais beneficiários recorrem à «lumpenpopulação» para obstar à estratégia dos que mais ativamente os combatem. Nem que para isso criem sindicatos para destruir o Serviço Nacional de Saúde ou ponham desempregados a virarem-se contra a população negra, como se ela não fosse constituída de cidadãos com iguais direitos aos seus.
No entretanto vão infiltrando as polícias, como o «Diário de Notícias» tem denunciado nas últimas semanas: quer na PSP, quer nos guardas prisionais são explícitos os comportamentos nazifascistas de alguns dos seus elementos. Mas, no caso destes últimos, a Direção que os comanda minimiza o assunto, dizendo-se indisposta a tomar medidas corretivas por não agir de acordo com as crenças de tais energúmenos. Como se possa ser considerada normal a presença de nazifascistas dentro da Administração Pública...

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