sábado, 9 de fevereiro de 2019

Lições com mais de cem anos, que nunca deveriam ser esquecidas


Há cento e poucos anos os principais dirigentes do Partido Social Democrata alemão pediram a Rosa Luxemburgo, que se dedicasse sobretudo ás questões feministas por serem essas as que melhor a tornariam útil à sua estratégia. 
Enganavam-se com quem tinham pela frente, porque logo ela lhes lembrou a sua condição de economista, e de veterana lutadora política, que a habilitaria a definir quais as melhores estratégias para o sucesso do movimento operário. Sem enjeitar que as causas feministas se incluiriam na globalidade dessa análise contextual.
Quer isto dizer que, há mais de um século, já ela entendera a importância de não segmentar as causas fraturantes da plenitude de toda a ação política. Algo que as esquerdas dos últimos anos esqueceram, porque puseram-se a defender essas mesmas causas como se valessem por si mesmas, esquecendo-se do risco de comportarem efémeras vitórias se o conjunto da sociedade não avançasse para patamar diferente. Por isso mesmo uma conquista, que se julgaria definitiva - a do aborto - está em sérios riscos de se perder por vontade do atual inquilino da Casa Branca e da mudança operada na composição do Supremo Tribunal dos EUA.
Infelizmente as esquerdas estão esquecidas da primeira frase do célebre Manifesto de Marx e de Engels, que enfatiza a histórica intemporalidade da luta de classes. Que, a cada momento, existem interesses contraditórios entre os que tudo têm e não o querem perder, e os que, nada tendo, anseiam por uma melhor distribuição da riqueza disponível. Com todas as complexidades complementares, como as de vermos tantas vezes os explorados a fazerem o jogo dos exploradores, como sucede agora com os enfermeiros, ao contribuírem ativamente para a destruição do Serviço Nacional de Saúde, que deixe os privados a gerirem o seu negócio em roda livre.
Por essa época, Rosa Luxemburgo defendia outro princípio importante: em vez de criar um partido próprio, onde sentisse prevalecerem as suas razões, preferia manter a luta dentro do SPD, convencida da importância de contribuir internamente para a sua transformação  e melhor adequação à defesa dos interesses dos que deveriam ter nele o guia orientador.
Pela sua lucidez, Rosa Luxemburgo suscitou tanto ódio nos pré-fascistas do seu tempo que, quando a decidiram matar, o fizeram três vezes: agrediram-na e apunhalaram-na no quarto de hotel onde a foram buscar, deram-lhe um tiro na cabeça ao transportarem-na para o carro, que a levaria até à ponte, donde a precipitaram para o rio.  Aconteceu há cem anos, no dia 15 de janeiro de 1919!
Terá sido um fim lamentável para quem defendia a necessidade de conciliar a luta pela Igualdade com o respeito pelas liberdades fundamentais. Mesmo as dos que odiavam o que ela pensava. Paradoxalmente ela viria a demonstrar uma das grandes lições a não esquecer por quem se filia no pensamento de esquerda: que a violência revolucionária pode ser imprescindível quando, do lado contrário, está a de cariz fascista.

1 comentário:

  1. Concordo que não é possível segmentar a luta dos oprimidos em diferentes causas sob o risco de que quem é poderoso use a divisão para reinar. Mas também não é possível ignorar que as desigualdades não nascem iguais e que o preconceito reina mesmo dentro do lado dito progressista. Quantas mulheres ocuparam cargos de relevo na URSS? A irmandade revolucionária era a mais das vezes a de homens brancos, ficando as mulheres e todos os outros de fora.

    Quanto à necessidade de violência revolucionária, ela é a mais das vezes contraproducente. A primeira das revoluções, a francesa, afogou-se no sangue do terror e o reformismo social-democrata (em particular o nórdico) alcançou mais do que todos os socialismos violentos, normalmente depressa convertidos em despotismos que fariam um fascista tremer de inveja.

    O assassinato de Liebknecht e Luxemburgo foi naturalmente um ato execrável, mas cabe lembrar que ocorreu no contexto da repressão da revolta spartakista em Berlim, a que os dois aderiram, e que tal revolta não foi a resposta a uma qualquer forma de repressão por parte da República de Weimar...

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