domingo, 24 de fevereiro de 2019

Algumas ideias pertinentes sobre o ser-se, ou não, europeísta


No «Expresso» desta semana há uma entrevista com Marisa Matias, que me suscita acordo numa constatação, que ela não formula da mesma maneira como aqui o faço. Existe uma tentativa de separar águas entre quem é ou não é europeísta. Levado por esse maniqueísmo demasiado primário, eu tenho-me sentido a tender para quem, apressadamente, se qualifica de eurocético dado o comportamento de Bruxelas em ocasiões decisivas. Como quando quis impor aos países do sul um doloroso castigo por serem despesistas e, sobretudo, como destruiu um país (a Grécia) por ter havido a pretensão dos seus eleitores em buscarem solução política mais à esquerda. Ou como tem hostilizado ostensivamente a Rússia de Putin ao submeterem-se à agenda expansionista do Pentágono, que acolitado pela CIA e outras agências, vai conspirando para mudar sucessivos governos, ora na Ucrânia, ora na Venezuela (e com Mike Pompeo a prometer que não se ficarão por aqui!).
Nesse sentido a deputada do Bloco tem razão quando considera nada ter de europeísta a política seguida por Bruxelas nos últimos anos: é europeísta apresentar propostas sistemáticas de redução de fundos de coesão? Pôr um garrote às economias periféricas que não deixa margem de respiração e condiciona a própria democracia? É europeísta fazer um caminho que agrava os desequilíbrios macroeconómicos? Não tenho visto a UE a ser europeísta ou a promover a cooperação nos domínios que importam.” E essa constatação torna-se ainda mais consequente, quando se sabe a ânsia do Partido Popular Europeu em reduzir os fundos estruturais para criar um fundo europeu de defesa, que crie um novo exército europeu.  O que está em causa é Portugal ver-se privado de verbas fundamentais para desenvolver o seu interior, e nomeadamente a sua agricultura, para pagar os salários e o armamento dos militares alemães, franceses, polacos, espanhóis ou italianos, que certamente, prevalecerão nessa organização militar comum.
Outra constatação em que Marisa Matias tem razão é a falácia em como os partidos da direita dita democrática, a nível europeu, integraram nos seus discursos políticos os argumentos das respetivas extremas-direitas a pretexto de lhes esvaziarem a importância. Hoje já é possível constatar que, não só contribuíram para lhes propiciarem a ascensão, como para banalizarem os seus propósitos mais execráveis.
Numa circunstância em que as esquerdas europeias carecem de lucidez para enfrentarem e vencerem os desafios dos próximos anos, algumas das ideias expostas nesta entrevista integrarão, por certo, a análise que conduzirá a uma concetualização de conceitos ideológicos, traduzidos numa estratégia política eficaz, que sacuda o Velho Continente da letargia retrógrada em que se vem afundando.

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