sábado, 11 de agosto de 2018

Eles que tirem o cavalinho da chuva


Já aqui o escrevi, e repito-o: a partir do momento em que nomeou Maria de Belém para a Comissão incumbida de rever a Lei de Bases da Saúde, que Adalberto Campos Fernandes merece as minhas mais justificadas dúvidas sobre se será quem melhor defenderá o serviço público por si tutelado. Mas, sendo ele o escolhido por António Costa, que ainda não viu motivos bastantes para o despedir, tenho de o considerar como parte integrante do governo, que apoio, e cuja continuidade defenderei até ao fim da legislatura.
Compreendo, igualmente, que as direitas procurem encontrar sempre um elo mais fraco para, exigindo a sua demissão, que a conseguirem-no, logo pretenderiam alarga-la a todo o demais elenco governativo, a pretexto da sua suposta fragilidade. Daí que, na entrevista ao «Expresso», António Costa tenha sido taxativo: bem podem bastonários e sindicatos dos médicos e enfermeiros fazerem greves e manifestações que, se julgam assim alcançar a demissão do ministro, podem tirar o cavalinho da chuva.
Ademais a situação está muito longe de ser aquela que os contestatários reivindicam e alguns incautos, por eles influenciados, acreditam. Vale a pena voltar por isso a um artigo assinado por Isabel do Carmo numa edição do «Público» do final do mês passado e curiosamente ignorada ostensivamente, não só por quem se sente por ele atingido, mas sobretudo pelos que o deveriam referenciar repetidamente como prova da falsidade do clima de suspeição ainda existente sobre o setor.
Nesse artigo a conhecida médica contava uma experiência pessoal muito elucidativa: «Recentemente, um velho amigo meu francês, de passagem por Lisboa, telefonou-me num fim-de-semana a dizer que estava com uma dor no peito havia duas horas e não sabia se havia de esperar por segunda-feira e procurar um cardiologista. Disse-lhe para tomar um táxi o mais depressa possível e ir à urgência do Hospital de Santa Maria ou do Hospital de S. José. Assim fez e telefonou-me uns dias depois a explicar que tinha tido um infarto cardíaco e tinha posto um stent na coronária. E comentou-me na sua língua: “Cinco estrelas! Afinal, o que se passa com os hospitais não é nada do que vem nos jornais.” (Sabe ler português.)»
Esse desfasamento entre a versão da situação do setor, segundo os jornais, e a realidade identificada por um testemunho tão imparcial tem uma explicação: os interesses privados no setor da saúde estão intrinsecamente ligados com a direita parlamentar e com quem a apoia na comunicação social. Muitos dos que vemos perorar em defesa do Serviço Nacional de Saúde, de que foram opositores constantes desde o momento da sua aprovação (caso de Marcelo Rebelo de Sousa), têm notório conflito de interesses por terem ligação a empresas com fins lucrativos na área. É aliás essa a razão de ser incompreensível a nomeação da antiga candidata presidencial para a comissão, cujo trabalho tarda e, sobretudo, cujo conteúdo, dificilmente corresponderá ao interesse coletivo.
Quando se ouve Assunção Cristas, ou algum dos seus cúmplices, a lamentar a «degradação« do serviço prestado pelos hospitais públicos e unidades de saúde familiar, não esquecemos a sua pertença a um governo que, tão-só tendo tomado posse, logo  reduziu o orçamento para a Saúde, que era em 2010 de 8699 milhões de euros e em 2012 estava em 7525 milhões. E a participação das famílias passou ao seu máximo, 28%. Que entre 2010 e 2015 a despesa corrente com os hospitais públicos desceu de 5508 milhões de euros para apenas 4843, ao mesmo tempo que a despesa do SNS com os hospitais privados subiu de cerca de 391 milhões de euros para 554, ou que o número de funcionários dos vários sectores na Saúde desceu 12%.
Os sindicatos, que marcam sucessivas greves para servirem de idiotas úteis aos donos dos hospitais e clínicas privadas, querem ignorar que, nesse período, o horário de trabalho aumentara para as 40 horas semanais e que grande parte das horas extraordinárias deixaram de ser pagas.
É por tudo isso que Isabel do Carmo conclui que esta campanha «serve (...) interesses privados e é mais do que hipócrita, enganadora. Mas os defensores verdadeiros e coerentes do SNS também não podem demitir-se de estar alerta em relação às derivas e às promessas por cumprir.»

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