quarta-feira, 14 de março de 2018

Uma estratégia de casos para corroer a boa imagem do governo


1. A campanha catastrofista em torno da situação do país, que procura dele dar um estado de alma depressivo, a contraponto com o suscitado pelos resultados da governação, voltou a manifestar-se com novo episódio: o do estado das infraestruturas ferroviárias em Portugal.
Não interessa que os factos coligidos no relatório tenham origem num desinvestimento público, que dura há muito mais tempo do que o da vida deste governo. Para a segunda metade da legislatura as direitas acossadas nos órgãos de comunicação social andam a recorrer a munições, por agora relativamente eficazes, silenciando as boas notícias suscitadas pelos resultados da governação: criam «casos», que abram telejornais e suscitem em quem é mais ingénuo a sensação de viver num país à beira do desastre. Dando depois tempo de antena injustificável à líder de um pequeno partido como se ele tivesse apoio popular e propostas, que pudessem justificar tal atenção.
A guerra está acesa e será judiciosa a atempada resposta do governo em particular, e das esquerdas em geral, a esta campanha, que tem o claro propósito de cativar para a oposição ativa os que, até agora, possibilitaram a sobrevivência deste governo. Será estúpida a reação do Bloco e dos comunistas se se deixarem arrastar para tal logro. Porque as direitas recorrem ao velho truque de dividirem para reinar…
2. Que Assunção Cristas se contradiz com a maior das facilidades denuncia-o Pedro Adão e Silva, que nos convida a reparar como, por um lado, ela afirma-se com vontade de chegar a primeiro-ministro tornando o CDS o maior partido das direitas, mas, por outro lado, coloca como objetivo conseguir um segundo deputado para acompanhar Nuno Melo no Parlamento Europeu reconhecendo a impossibilidade de ir mais além. Daí que se questione como, com objetivo tão explicito para as europeias, pretende alcançar um muito mais ambicioso meses depois, quando for tempo de legislativas?
3. Mas se a presidente do CDS vai repetindo balelas à espera de ver a realidade dobrar-se à sua vontade, Rui Rio segue outro caminho de pedras por culpa própria, que só tende a danificar-lhe a já muito comprometida imagem: depois das praticas indecorosas do seu cacique de Ovar, ei-lo a defender o seu secretário-geral cuja criatividade na elaboração do curriculum académico foi desmascarada e já está a ser objeto de investigação pelo Ministério Público. Os alegados padrões morais do novo presidente do PSD seguem a regra de São Tomás, exigindo que olhem para o que ele diz, mas não tanto para os que os seus fazem…
4. Uma boa demonstração de como os partidos ditos sociais-democratas perdem a alma, quando se coligam com as direitas, reside no SPD alemão, que se preparava para fazer aprovar uma lei a eliminar alguns dos constrangimentos à Interrupção Voluntária de Gravidez e para a qual contava com o apoio dos Verdes e do Die Linke e agora deixada cair devido aos constrangimentos com o seu novo conúbio. Os direitos das mulheres alemãs são, assim, uma vez mais atirados às malvas por execráveis razões políticas …

1 comentário:

  1. Jorge Rocha, deixe por momentos a clubite partidária e esquerdista e faça umas contas. Os assentos do SPD, Verdes e die Linke não perfazem uma maioria no Bundestag. A única coisa que impede um Governo CDU+FDP+AfD são os escrúpulos da Sra Merkel e a incompatibilidade de programas entre os diferentes Partidos da Direita Alemã (dos quais a CDU é de longe a força mais ao centro nos tempos que correm)...

    Acaso existisse um grupo parlamentar do PNR na AR com a votação da AfD, Costa não teria outro remédio que não tolerar Passos Coelho ou mesmo coligar-se com ele. Não haveria cá espaço para geringonças...

    Como Merkel excluiu um executivo minoritário da CDU, a solução seria a convocação de novas eleições em que o SPD provavelmente passaria para trás da AfD. Claro que a reedição da Grande Coligação é péssima para o sistema político alemão, porque não faz mais do que reforçar os extremos, mas o SPD foi colocado num dilema terrível: tomar o veneno agora ou daqui a três anos e meio...

    Devemos colocar-nos nos sapatos dos outros antes de fazermos juízos de valor. Que o Prof. Louçã ou quem lá for os faça, é com eles, que recusam responsabilidades governativas (assim é fácil). Que um militante do PS dispare da boca para fora, olhando em particular ao que o PS deve ao SPD e a Willy Brandt, é outra coisa...

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