sexta-feira, 23 de março de 2018

Recordar maio de 68 (1) : um movimento transnacional


O «movimento de Maio 68» ou a «greve geral» apenas compõem uma parte da crise inédita, que afetou a França entre 3 de maio de 23 de julho desse ano. Tais acontecimentos integram um movimento transnacional de natureza geracional: nos anos 60, a geração nascida após a Segunda Guerra Mundial chegou à idade adulta numa altura em que se verificava a eclosão do consumismo como corolário do crescimento económico. Aumentava-se o tempo de escolaridade obrigatória, democratizava-se o acesso á universidade  e assistia-se a uma rápida revolução nos costumes.

Inicialmente cultural, com os blusões negros, os hippies e outras autoproclamadas tribos, a afirmação da juventude politiza-se com a guerra do Vietname. Nos Estados Unidos a contestação estudantil começa em 1964 na universidade de Berkeley. Na Europa é agitada pela militância comunista e de extrema-esquerda. Ganham forma novos métodos de ação, que tanto decorrem do movimento norte-americano dos Direitos Cívicos, como dos berlinenses da Ação Subversiva, dos Zengakuren japoneses ou dos provos de Amesterdão, que não excluem o recurso à violência. Essa contestação de base essencialmente estudantil, embora mais pródiga nos EUA e na Europa Ocidental também ganha expressão nalguns países do Bloco Leste (Polónia e Checoslováquia), na Espanha franquista, no México e no Japão.  Mas há quem nas universidades de Lisboa também olhe atentamente para os ecos, que vão soando vindos de tais direções, e os procure imitar à boleia da contestação contra a Guerra Colonial.

Em França o movimento acompanha essa vaga de fundo, mas apresenta uma dupla particularidade: combina a crise estudantil á de carácter social (só de dimensão similar na Itália e na Argentina) e reveste dimensão política numa acessão clássica desconhecida noutras latitudes. Existe uma condicionante antropológica no descontentamento dessa juventude, que pretende ocupar um espaço ainda ocupado pelos mais velhos. Sacudida pelas inquietações provocadas pelas redefinições económicas e sociais promovidas pelo quinto plano anunciado pelo governo, ocorre uma crise  decorrente da tardia modernidade da produção de riqueza.

A explosão escolar gera uma tensão entre o acesso crescente de estudantes e as universidades, que não se tinham preparado para esse afluxo. Em Paris, o encerramento da Universidade de Nanterre em 3 de maio, na sequência dos protestos do Movimento de 22 de Março  (grupo libertário liderado por Daniel Cohn-Bendit), logo seguido do da Sorbonne, verte para as ruas o descontentamento dos estudantes

A revolta alarga-se a todas as universidades, culminando na noite das barricadas entre 10 e 11 de maio, que sugere a reedição dos velhos fantasmas revolucionários. Fecham-se as ruas, mas abrem-se caminhos, proclama-se  perante a polícia de choque, que prende 460 pessoas e fere 367. A Comuna de Paris é assumida como modelo e bandeira, ganhando a simpatia em amplos setores sociais. Num país, que estivera em guerra (na Argélia) até 1962, a passagem da tolerância social para a violência contribuiu para exacerbar as emoções.


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