sábado, 10 de março de 2018

Treslendo o semanário de Balsemão


1. Semana a semana Angela Silva continua-nos a dar conta dos estados de alma de Marcelo Rebelo de Sousa, que já terá reunido o seu staff em Belém para implementar o plano alternativo ao de não ver Rui Rio a ser bem sucedido como líder da oposição. Na edição de hoje do «Expresso», a voz oficiosa do presidente confidencia a intenção de, tão só constatada a incapacidade para o seu partido subir nas sondagens e obstar à maioria absoluta dos socialistas, e ei-lo numa espécie de tournée pelo país fora para mostrar aos apreciadores de selfies  e de abraços o quanto de menos bom possa ser empolado na governação de António Costa. E já tem como primeiro alvo a Saúde, apesar de saber quanto já aumentou o investimento no setor e os sucessivos records alcançados em números de consultas e tratamentos no SNS. Afiança-se no texto que “a calma de Rio deixa Marcelo ansioso” nestes dias em que equaciona o sucesso ou insucesso da sua estratégia de devolver o país aos novos donos disto tudo.
2. Martim Silva, diretor-executivo do semanário de Balsemão, vem-se responsabilizando pela rubrica de Altos & Baixos na segunda página há já algum tempo. Embora tenha desta feita de reconhecer o sucesso de António Costa por ter conseguido que a Comissão Europeia retirasse o país da lista dos países com desequilíbrios macroeconómicos excessivos, optou, viperinamente, de o fazer acompanhar de outro «socialista» - Sérgio Sousa Pinto - por ter aprovado a contratação de Passos Coelho para o ISCSP. Para Martim e outros que tais no mesmo jornal, um bom socialista é aquele que se porta de forma absurda e a contrario de quase todos os seus camaradas.
3. A entrevista de duas páginas com Assunção Cristas seria completamente olvidável se ela não se considerasse com potencial político para vir a ser primeira-ministra. Alguém que nenhuma sondagem lhe dá perspetivas de votação acima do solitário digito e se julga capaz de, por um passe de mágica, vê-lo no mínimo quintuplicado, ou é tonta, ou repete a perspetiva goebbelsiana  de repetir milhentas vezes algo a ver se o transforma numa improvável verdade. Para já ficámos a saber que conta com a colaboração da brasileira de Pedrógão Grande e com Pedro Mexia para lhe carpinteirarem o programa eleitoral e que se sente como o Calimero na forma como se vê tratada nos debates parlamentares por António Costa, atribuindo a causa ao facto de ser … mulher. Esquece-se, obviamente, que quem vai à guerra de argumentos com má educação, recebe o trato que merece…
4. Embora discordando quase sempre de Miguel Sousa Tavares compreende-se o seu espanto com o facto de uma enorme maioria de italianos não quererem sair da União Europeia, nem do euro, mas terem votado em duas forças políticas, que dela fizeram o saco de boxe da sua campanha. Tanto mais que, não fosse a intervenção do BCE e o seu sistema bancário teria ruído como um castelo de cartas. E que, mostrando-se desconfiados com os partidos e com o governo, 78% reconheçam-se satisfeitos com a vida que têm.
Não sendo a minha posição, há algo de pertinente na proposta para a União Europeia com que conclui a sua crónica: “avançar apenas com quem quiser ficar dentro sem reticências e expulsa os outros sem apelo. Nem que, para ultrapassar os problemas jurídicos, tenha de fazer as duas coisas sucessivamente: primeiro extingue-se, depois cria nova organização com os que querem continuar a defender os valores europeus.”
Uma coisa se conclui: nos seus dois mandatos Durão Barroso foi o principal responsável por condenar a União ao estado comatoso de que dificilmente recuperará.
5. Em dia de Congresso do CDS Pedro Adão e Silva assina uma crónica em que, distâncias ideológicas á parte, encontra perturbantes similitudes entre o partido de Cristas e o Bloco de Esquerda. Para ele ambos “têm hoje uma enorme plasticidade, que lhes permite alicerçarem a sua ação quotidiana mais em torno do ciclo mediático e menos em causas.” E, de facto, tem sido, no mínimo estranho, que se encontrem tão frequentemente coligados em votações parlamentares contra o governo ou a competirem por chamar ministros a São Bento para se explicarem quanto ao que os jornais dizem estar a correr mal.
6. Conclua-se com a crónica, sempre imperdível, de Daniel Oliveira, que começa por lembrar como Matteo Renzi anunciara o suicídio do Labour de Jeremy Corbyn há três anos, e se viu empurrado para o caixote do lixo da História enquanto o político inglês tem fortes possibilidades de vir a ser o próximo ocupante do 10 de Downing Street.
A incapacidade das democracias ocidentais responderem com inteligência ao fenómeno da globalização está a empurrá-las para sucessivas implosões.
Torna-se evidente que os únicos sítios onde as esquerdas conseguem o apoio dos eleitorados para as suas propostas são aqueles onde elas não enjeitam os seus valores ideológicos mais consistentes.

2 comentários:

  1. Em resumo, a ideologia como substituto de políticas bem delineadas. Porquanto o eleitorado aprove, vamos a isso... Só resta o problema do que irá acontecer depois ele chegar a PM.

    Com os populistas de Direita, não há problema. Em primeiro lugar não colocam nada de verdadeiramente central em causa (o capitalismo) e limitam-se a despachar as culpas para os mais fracos, os imigrantes. Depois, podem sempre suspender a democracia, vide o que se passa na Hungria ou Polónia.

    Portanto, fica a pergunta, o que irá Corbyn, sem dinheiro, fazer quando (e se) chegar ao Poder? Lamentavelmente, a isto, nem Daniel Oliveira nem mais ninguém da Esquerda conseguem responder. O entusiasmo veio e irá como de costume quando ele seguir o mesmo caminho de todos os populistas de Esquerda antes dele... Ainda recordo o que se dizia do Syriza...

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    1. Sempre o mesmo paleio requentado da direita: Sem dinheiro, como vai fazer? Também se dizia o mesmo de Costa, e estão a ver-se os resultados. Esta gente nem com as evidências aprende, continuando a carpir mágoas por um passado que felizmente é apenas isso, um passado.

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