domingo, 11 de março de 2018

As lições a colher cá dentro e lá fora


1. O Congresso do CDS traz como novidade mais palpitante a assumida intenção de Assunção Cristas querer espoliar Rui Rio do seu eleitorado natural. Convenhamos que, depois de décadas de divisões à esquerda, cujo saldo terá sido o de suportarmos Cavacos, Passos, Portas & afins demasiado tempo, mesmo quando sabíamos a tendência maioritária do eleitorado para votar á esquerda, sabe bem ver as direitas a defenestrarem-se entre si dada a forte probabilidade de garantirem, assim, maiores ganhos às esquerdas. Conquanto estas saibam ter juízo e não se porem a imitar os partidos do campo contrário de forma a gerarem um tipo de confusão como a criada em Itália de há uma semana para cá.
2. Para além das grandes «aquisições» operadas no mercado de transferências deste final de inverno, Assunção Cristas cuidou de manter Nuno Melo em Bruxelas não fosse ele atirar-se-lhe às canelas e reivindicar o papel de delfim do lobista, que deixou a governação em 2015 para se tornar no vendedor ambulante de gente pouco recomendável, mas que lhe garantem um estatuto remuneratório muito acima do que mereceriam as suas «qualidades». E descartou a Tagui, que parece condenada a ser um daqueles acessórios fora de moda, definitivamente esquecidos no fundo do armário.
3. Armário donde saiu, cada vez mais orgulhoso, o Adolfo, que não se cansa de utilizar em proveito próprio e do partido esse orgulho na «diversidade». Para os que andam a elogiá-lo pela «coragem» e comedimento com que anunciou a opção sexual à nação, a reiterada utilização do argumento com fins políticos não deixa de ser a negação dessa alegada discrição.
4. Uma reportagem de Carlos Dias no «Público» dá conta dos danos ambientais causados pela excessiva plantação de olivais nas margens do Alqueva, que não poupa caminhos, nem linhas de água, e muito menos os ecossistemas onde as abelhas e os morcegos garantiam a sustentabilidade das suas colónias. A ganância pela ocupação do espaço é tal, que não respeita os limites definidos pelos cadastros municipais, nem possibilitam a mobilidade das populações envelhecidas aí sobreviventes.
Tratando-se da manifestação do capitalismo agrário na sua expressão mais selvagem, urge que o governo da República imponha normas regulamentárias passíveis de impedir danos maiores.
5. Steve Bannon, o execrável fascista norte-americano, que tanto fez para levar Trump ao colo até à Casa Branca, veio a este lado do Atlântico para «abrilhantar» o Congresso da Frente Nacional e dar o seu contributo para que a já insuportável Marine Le Pen seja substituída pela sobrinha Marion, cuja natureza perversa consegue ser ainda mais tóxica do que a da sua decadente tia.
O antigo responsável pelo site Breitbart anunciou que o sentido da História estava com os movimentos de extrema-direita um pouco por toda a Europa, mas façamos votos para que se engane redondamente. Saibam as esquerdas recriarem-se através do regresso aos valores, que sempre foram os seus, e aprendam a comunicar com os que, desconcertados pelos efeitos da globalização, vão atrás dos que fazem por falar mais alto e isso nunca sucederá.
6. Numa entrevista ao caderno P2 do «Público» o realizador brasileiro João Moreira Salles formula uma tese bastante pertinente sobre a razão do fracasso de Lula: em vez de impor a rutura, que a ideologia de que se fazia porta-voz anunciava, o antigo metalúrgico de São Paulo iludiu-se com a possibilidade de fazer os milhões de pobres do Brasil acederem aos padrões de consumo da classe média. Esquecendo-se que a Revolução não é nenhum convite para jantar julgou possível juntar à mesma mesa os que eram patrões e os que lhes prodigalizavam as riquezas mediante a venda da força do seu trabalho. Conclua-se, pois, que não há pior defensor dos explorados do que aqueles que pensam possível promove-los socialmente como se não estivéssemos numa equação de soma zero, em que os ganhos de uns equivalem às perdas dos outros. Ao querer dar ganhos a um lado sem impor as perdas aos do outro, Lula perdeu uma guerra, que nunca quis enfrentar, mas para a qual está a ser arrastado por quem nunca perdeu essa cínica noção das realidades.

1 comentário:

  1. Não, Lula fundamentalmente deixou que se desenvolvesse uma cultura de corrupção dentro do PT que tornou esse Partido vulnerável quer à ofensiva de uma Judicatura parcial, quer à acusação de que o Partido dos Trabalhadores é afinal igual aos outros, mesmo que Lula não tenha lucrado pessoalmente com isso (o ex-Presidente pode estar inocente, mas o Mensalão foi mesmo uma realidade).

    A Revolução é um convite para que se cometam crimes em nome da mesma e para que os novos detentores do Poder rapidamente reproduzam os piores vícios da ordem anterior, incluindo a corrupção (na ausência de mecanismos de controle e de Oposição), como a História comprovou vezes sem conta.

    Mas o Jorge Rocha é um ingénuo (prefiro isso a acreditar que é um cínico leninista a quem não interessa mais do que o Poder) que ainda acredita em Utopias. Eu estou como o falecido Tony Judt, de boa memória, que dizia que o nosso principal objetivo é sobretudo evitar mundos piores.

    O campo de concentração nazi e o gulag soviético só se distinguem naquilo que os justifica, não se distinguem em nada naquilo que produziam, um rastro de cadáveres sem conta...

    A mim não me interessa nada libertar o potencial criativo de homem para a criação de uma sociedade nova. De cada vez que isso acontece, dá asneira e da grande... Interessa-me reformar o que existe para o preservar e melhorar e criar uma sociedade um pouco mais justa (chame-me Conservador, se quiser)...

    E, já agora, quando se refere às privatizações, convinha que se lembrasse que não foram apenas os Governos PSD ou PSD-CDS que as fizeram. Guterres e Sócrates também privatizaram...

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