quarta-feira, 28 de março de 2018

Não é o facebook o nosso verdadeiro inimigo


Para os principais defensores das direitas um mundo perfeito neste cantinho à beira-mar plantado seria aquele em que as únicas fontes de informação, que chegariam aos eleitores, seriam os canais de televisão e de rádio atuais (quer os públicos, quer os privados, porque em nada se distinguem no seu alinhamento com tais áreas políticas) e os jornais e revistas remanescentes da crise geral da imprensa (quase) todos da propriedade dos mesmos suspeitos do costume.
Sem outro contraditório que não fosse o da militância dos partidos de esquerda através das, então, pouco noticiadas ações de divulgação das suas ideias, chegaríamos a um situação parecida com a da Polónia ou a da Hungria em que os resultados eleitorais contemplam maiorias robustas às forças políticas já no governo e de cujos mecanismos se servem para imporem uma ditadura de facto, que só ingénuos ou mal-intencionados continuam a qualificar de democracia.
No entanto essa é tese que não impressiona os antissocialistas primários, que vituperam a Venezuela de Maduro, mas esquecem facilmente as práticas dos partidos europeus parceiros do PSD e do CDS no PPE. Um dos nossos leitores até veio com a tese peregrina de que, se os povos do Leste, tinham eliminado os seus partidos comunistas, justificava-os a memória de quanto eles lhes tinham desagradado. Para quem defende tais teses não existiram contínuas ações da CIA no sentido de desestabilizarem esses países, financiando-lhes muitos dos seus «opositores» e, depois, através do controlo dessa (des)informação, instilar-lhes ideias manipuladas sobre o que é a Democracia, a Liberdade de Imprensa ou qualquer dos demais direitos fundamentais.
Quem anda tão ciosamente a defender os multipartidarismos do tipo de Democracia implantado por  todo o Ocidente compraz-se com essas supostas liberdades - usufruídas decerto pelos que detêm a propriedade, e por inerência, o poder, mas sonegadas à grande maioria silenciada e explorada.
Não pondo em causa que a Democracia socialista deva ser multipartidária, deve-se porém denunciar o quanto o modelo atualmente existente só aceita essas regras de respeito pelas maiorias se elas coincidirem de facto com os interesses dessa minoria, cuja natureza é explorar as mais valias da enorme maioria. Porque, como se vê na Catalunha, acaso essa compatibilidade se não verifique, logo avançam os tribunais para condenar, as prisões para encarcerar, e os tratados internacionais para extraditar quem sair do redil pretendido.
Nos últimos anos as redes sociais têm permitido disseminar vozes alternativas ao dar o direito à palavra, e quantas vezes à indignação, dessas minorias silenciadas nos órgãos de comunicação tradicionais. Por isso importa silencia-las e é nesse quadro que se constata a guerra atualmente declarada contra o Facebook. O que se espera venha a ser compreendido por Zuckenberg é quanto os métodos empreendidos pela Cambridge Analytica correspondem a esse ataque: embora detestando a democracia global quanto à afirmação da liberdade do pensamento, os plutocratas, que financiaram as ações de sabotagem agora expostas, tiveram a inteligência de explorar-lhe as fragilidades, estando à vontade para a conseguirem calar depois de terem levado a Grã-Bretanha a votar no Brexit e Trump a ocupar a Casa Branca.
Nós precisamos das redes sociais para contrariar o cerco mediático, que nos quer obrigar a pensar todos pela bitola dos mesmos valores e conceitos, que só interessam a quem nos explora. Que o Facebook se reformule e volte a ser aquilo que urge converter-se: no grande instrumento de discussão e de partilha de ideias, que facilite o advento de uma sociedade efetivamente democrática.

2 comentários:

  1. Portanto, se bem percebo o Jorge Rocha, o desaparecimento da Esquerda no Leste Europeu nada tem a ver com a repressão comunista. É exclusivamente uma obra da CIA. É curioso que quem vitupera contra o imperialismo americano (que é um facto) se esqueça que o imperialismo russo também existiu (incluindo na URSS) e continua a existir.

    Quanto à Venezuela de Maduro, faço notar que para além da repressão e das mortes, 80% da população vive na pobreza graças ao socialismo bolivariano para o sec. XXI. De novo, deve ser uma manobra da CIA... Se isso é liberdade, eu que me confesso como um pobre precário de classe-média, dos tais que beneficia imenso com a presente situação, digo desde já, tragam-me por favor as grilhetas de Bruxelas, as tais de que os britânicos se libertaram, graças à ajuda dos plutocratas (para quê, pergunta-se, mas enfim), enganando o pobre do (plutocrata) do Mark Zuckerberg...

    Ah pois, a Democracia socialista deve ser multi-partidária, só que tem que ser socialista. Pode escolher-se a cor política que se quiser, desde que seja vermelho. É essa a nossa diferença, eu acho que também a Direita tem direito de cidade. E se isso é um tique reacionário, olhe paciência, ainda bem que pessoas como Ramalho Eanes, Vítor Alves e Melo Antunes, para além de Mário Soares, claro (recomendo-lhe em particular aquela parte do debate com Cunhal em que ele dizia que o PSD, se ganhasse as eleições, tinha direito a governar), pensavam assim em 1975 (isto é uma provocação, evidentemente).

    Em resumo, despachar o óbvio com racionalizações continua a ser o mecanismo habitual para não se admitir que se perdeu há muito a parada, mais precisamente em 1991, quando todo o edifício do socialismo real veio abaixo com estrondo e se mostrou que afinal, a alternativa ao capitalismo era muito pior do que ele...

    Só é pena que a incapacidade em ver esse facto simples engendre depois tristes situações em que se faz o elogio de autocratas como Putin (e que o meu caro admite serem autocratas).

    Olhe, tragam-me por favor em vez deles a senhora May, se não houver mais ninguém disponível...

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  2. O Facebook está a ser o cavalo de Troia da imprensa tradicional que, vendo as redes sociais a progredir e a destruírem as "verdades" que os "donos" dos media nos querem continuar a impingir, engendrou uma forma astuta e ardilosa de "embrulhar" o Zuckerberg em papel de jornal para dar a comer aos incautos.
    Os manipuladores do Mundo estão sempre um passo à frente dos de boa fé que ainda acreditam em acasos e coincidências.

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