terça-feira, 20 de março de 2018

Cuba: um socialismo viável ou a resiliência de um regime dissociado dos seus ideais»


Esta noite, pelas 21.30, na Associação Gandaia na Costa da Caparica, vamos discutir a situação política e económica em Cuba e todos são bem vindos para darem a sua opinião e vivificarem um debate, que se pretende animado e plural.
Poder-se-á equacionar até que ponto a situação revolucionária, que levou os «barbudos» ao poder, estava suficientemente amadurecida para concretizar o projeto inicial. É que o progressivo alinhamento do novo regime com a União Soviética só viria a incrementar-se depois de frustrados os esforços de Fidel para dialogar com a Administração norte-americana e dela conseguir, senão o apoio, pelo menos a complacência com a pretendida implementação de uma democracia com grande participação popular. Convenhamos que Fidel não teria outra alternativa senão virar-se para Moscovo, quando logo surgiram tantas ações da CIA para derrubarem o regime e o assassinarem.
Economicamente, e face ao bloqueio naval, que impedia a importação de mercadorias tão necessárias para satisfazer as carências de consumo da população, aferir-se-á se era possível conseguir a autossuficiência num tão pequeno mercado, onde os custos de produção seriam sempre elevados devido à insuficiente economia de escala. A criação do mercado negro, que tanto sabotaria os esforços das autoridades para cumprirem os objetivos da igualdade entre os cidadãos logo se tornou numa das mais úteis ferramentas dos que queriam ver a ilha devolvida às lógicas da exploração capitalista!
Culturalmente será judicioso ponderarmos se, perante a inexistência de uma vanguarda revolucionária, que estivesse consciente dos desafios a enfrentar e das transformações a impor, terá tal carência sido suprida com o forte investimento na educação e na saúde da população dando-lhe prova de como a utopia seria sentida como exequível se os avanços nessas áreas fossem replicadas em todas as outras.
Poder-se-á ainda olhar para Fidel Castro e Che Guevara e discutir até que ponto os cultos de personalidade em seu torno foram positivos ou contiveram as inconveniências das que se verificaram noutras latitudes.
E não se deixará de tecer alguma futurologia para perspetivar até que ponto, nas circunstâncias do futuro próximo - mormente com o desaparecimento da geração que protagonizou a Revolução - a ilha continuará a ser uma espécie de trémulo farol dos ideais de uma certa esquerda ou, se pelo contrário, verá a herança castrista reduzida a escombros para que os conglomerados capitalistas a transformem numa réplica dos «paraísos caribenhos» particularmente apetecíveis para os turistas, que usufruem as suas privilegiadas condições naturais em luxuosos resorts, mas não impedirão quem trabalha de viver apenas um degrau acima da mais desesperançada das misérias.
Estão criadas, pois, as expetativas para um debate animado e enriquecedor para quem quiser aparecer e contribuir com as suas opiniões.

2 comentários:

  1. O Jorge Rocha, como de costume, não quer sequer considerar uma terceira hipótese, que é de os problemas sentidos por regimes como o cubano serem não defeito, mas feitio.

    Mesmo que economicamente o socialismo cubano fosse viável (coisa que nenhuma Economia planificada conseguiu até hoje, a China vive sob o capitalismo mais selvagem) esse sistema deveria naturalmente ser rejeitado. E deveria sê-lo pela simples razão que coarcta as liberdades políticas.

    O Jorge Rocha quer acreditar tanto na possibilidade de utopias que acaba, parece-me, sem dar por isso, a defender que se retire ao povo a capacidade de, se assim o desejar, voltar para trás. Suponha que se instituía, por via democrática, uma sociedade socialista entre nós. Que fazer então se o povo mudasse de ideias e decidisse fazer regressar a Direita ao poder? Muito naturalmente, qualquer democrata aceitaria que sendo o povo soberano, esse é o seu direito.

    A atividade económica deve sujeitar-se à vontade democrática? Sim, se possível. Mas a democratização da Economia não pode passar pela transformação do Estado num Estado de Partido Único. Não pode existir para os cidadãos uma cláusula de 'podem escolher a cor política que quiserem, desde que seja vermelho'...

    E não vale a pena dizer que o Capitalismo procede, na prática, da mesma forma. Como já o disse aqui, não conheço nenhum exemplo de um sociedade multi-partidária sob um outro sistema económico que não o Capitalismo. Se não dispomos de todas as escolhas, somos infinitamente mais livres que o povo cubano, para desgraça deste...

    A política existe para, a cada momento, podermos experimentar novas soluções (dentro de um determinado guarda-chuva constitucional, bem entendido) e rejeitá-las quando é preciso. Em suma, em primeiro lugar para a proteção da nossa liberdade tal como a definimos, não para a imposição de umas quaisquer 'amplas liberdades' que implicam a perpetuação de uma casta de iluminados no Poder. Iluminados que são, tipicamente, sempre profundamente medíocres e incapazes de pensar fora das fronteiras da sua caixinha de interesses pessoais...

    Termino com uma citação do Dr. Jivago, de um artigo que li ontem no Guardian:

    “It turns out that those who inspired the revolution aren’t at home in anything except change and turmoil… For them, transitional periods... are an end in themselves... And do you know why there is this incessant whirl of never-ending preparations? It’s because they haven’t any real capacities, they are ungifted.”

    A reforma e a mudança lenta requerem preparação e implementação meticulosas. A revolução é para os incompetentes. E os sangrentos...

    ResponderEliminar
  2. Desapareceu a "geração que protagonizou a Revolução". Mas continua vivo e actuante o infame bloqueio pelos USA, há 60 (sessenta) anos a tentar aniquilar Cuba!!! Até o "democrata" Obama consentiu nessa horrível vergonha a manchar um país que até tem gente de primeiríssima qualidade!

    ResponderEliminar