quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Uma entrevista interessante

Sempre tive Camilo Mortágua como um dos heróis do meu passado juvenil, razão porque estou atento ao desempenho das filhas que, de forma diferente, procuram manter os objetivos transformadores de uma sociedade ainda pejada de inaceitáveis injustiças.
Na entrevista de Mariana ao «Público» e à Rádio Renascença também havia o interesse de aferir até que ponto se mantém sólida a maioria parlamentar responsável pelo nosso esperançoso contentamento. E, nessa perspetiva, saímos confortados: não será pelo Bloco de Esquerda que António Costa verá perigada a condução governativa do país até ao final da legislatura.
Marcelo Rebelo de Sousa vem à liça com a deputada a concordar com ele na impossibilidade de o mundo continuar a ser o mesmo do que existia antes da crise financeira de 2008. Mas a consonância acaba aí: onde o selfieman questiona a possibilidade dos trabalhadores manterem os direitos e rendimentos então auferidos - de forma mais fofa retoma a retórica da direita sobre a necessidade de empobrecimento dos que menos têm! - a entrevistada contesta que o sistema financeiro continue a operar como se nada tivesse ocorrido.
Se as direitas conseguiram ser bem sucedidas, interna e externamente, em culpar os trabalhadores pela crise, ora porque tinham vivido acima das suas possibilidades, ora porque seriam uns madraços comparados com os esforçados obreiros do norte da Europa, fica implícita a necessidade de rever essas narrativas: o que aconteceu em 2008 teve a exclusiva responsabilidade do instável sistema financeiro, o que possa vir a repetir-se volta a ter de se lhe imputar dada a falta de regulamentação, que trave as bolhas de incauto financiamento sem as quais parece não conseguir funcionar.
Mariana Mortágua rejeita a tese de existir um novo desequilíbrio de forças, que vem penalizando os patrões enquanto favorece quem trabalha. Quase dois anos passados sobre a tomada de posse do governo socialista o mundo do trabalho continua caracterizado pela inaceitável percentagem do número de quem apenas possui vínculos precários e em que a produtividade continua a crescer acima da atualização dos salários.
Onde continuo a sentir algum desconforto com a opinião de Mariana Mortágua é na questão da dívida, para a qual ela e muitos economistas de peso á esquerda do PS continuam a advogar uma abordagem difícil de impor a uma Europa, que nem sequer aludir a tal probabilidade pretende aceitar. Embora se reconheça indigesta a receita de Mário Centeno, que considera tal dívida passível de progressiva redução nem que se passem vinte anos a repetir saldos primários de cinco, seis ou sete mil milhões de euros por ano. É que tal gigantesca verba faz muita falta para que se possa investir numa aceleração do acerto do país com o futuro bonançoso, que todos aspiramos vir a encontrar. 

1 comentário:

  1. Existe uma contradição insanável nas soluções propostas pelos Partidos à Esquerda do PS. Não existe nenhuma obrigação moral de pagar a dívida, o preço do dinheiro (taxa de juro) inclui justamente o risco de incumprimento. Mas BE e PCP-PEV defendem políticas keynesianas (que o próprio Keynes provavelmente rejeitaria) expansionistas, só possíveis à conta de maior endividamento. A quem? Àqueles a quem vamos dizer que não pagaremos as dívidas? O custo reputacional de um incumprimento não é calculável. Os Partidos de Esquerda recusam-se a aceitar que nesta matéria a moral conta pouco. Não interessa muito em que condições o País de endividou e qual a responsabilidade dos credores em tal coisa (que a têm certamente). Interessa o facto de que o País está, nesta matéria, do lado fraco da corda. É tão simples quanto isso. Se quisermos entrar em incumprimento, ficaremos durante vários anos sem acesso aos mercados e ninguém virá cá com nenhum programa de ajustamento. Ficaremos, qual Argentina, sozinhos com os nossos parcos recursos. Se o objetivo é gerar daqui uma crise e mudar o paradigma de governação, bem esses Partidos que assumam isso claramente. Se é melhorar as condições de vida dos Portugueses, o caminho não é esse...

    ResponderEliminar