quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Reparações em vez de sanções

Eu sei que não é de bom tom atirar ainda mais lenha para um fogo ainda na fase de rescaldo, mas o tema das sanções  continua na ordem do dia até por faltar a decisão definitiva sobre a suspensão ou não dos fundos estruturais. E não foi preciso que saísse o mais recente relatório de avaliação do comportamento do FMI sobre os chamados «programas de ajustamento» para que a Sandra Monteiro, diretora  do «Le Monde Diplomatique» assinasse um artigo na edição de julho a colocar como pertinente a possibilidade de se receberem reparações sobre os danos causados. Até porque o Brexit só demonstrou que a União Europeia “mostra nada ter aprendido com a crescente desafetação que gera nos povos europeus” com as suas orientações invariavelmente destinadas a “prejudicar as políticas de devolução de rendimentos, condições de trabalho e serviços públicos.”
As instituições europeias iludem-se com a sua vitória de Pirro sobre a Grécia, que lhes fez crer na possibilidade de se estrangular suficientemente um Governo de modo a obriga-lo a conformar-se com as imposições sobre ele direcionadas, mesmo que à custa da ainda maior degradação da sua economia.
Ao contrário do que andaram uns quantos estarolas a defender, sobretudo entre os que ainda não se conformaram com o modelo de governação estabelecido no nosso extremo ocidental da Europa, “as sanções nunca são técnicas. São, na perspetiva de quem usa a sua hegemonia como direito a matar a dissidência à nascença, uma forma de fazer regressar ao rebanho neoliberal qualquer ovelha tresmalhada. À paulada, se preciso for”.
O governo de António Costa foi irrepreensível na forma como combateu a imposição dessa ilegítima punição ciente de que ela só facilitaria “uma crise muito prolongada, com constante perda de rendimentos, níveis insustentáveis de desemprego, défices permanentes e uma dívida impagável.”
Embora poucos o digam com a necessária capacidade para se fazerem ouvir, as políticas ainda ditadas por Bruxelas e pelo FMI só servem para garantir a acumulação de lucros para as grandes multinacionais e para o vampírico sistema financeiro, “coisa que exige mais desemprego e precariedade, menores salários e pensões, menos proteção social menos Estado Social.”
Na abordagem deste estado de coisas, só podemos concordar com a Sandra Monteiro, quando ela conclui que “não deveríamos estar apenas a resistir a eventuais sanções: devíamos estar a exigir reparações pelos danos causados”.
A questão estará em discernir qual o momento certo e com que apoios externos se possam contar para alcançar esse salto qualitativo no nosso posicionamento dentro da União Europeia. 

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