sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A sucessiva desmontagem da narrativa

As notícias mais recentes sobre o Banif e o Novo Banco deram a Pacheco Pereira o ensejo de prever que o crescente descrédito do anterior governo na opinião pública muito deverá ao seu comportamento relativamente ao sistema financeiro e às privatizações.
Sabemos que a notável - e competentíssima! - campanha eleitoral do PSD e do CDS durante todo o ano de 2015 conduziu a um resultado injusto nas eleições de 4 de outubro, quando mereceram um apoio exagerado de eleitores, que tinham sido seriamente prejudicados pela sua ação governativa.
Uma intoxicação propagandística, que recorreu ao processo contra José Sócrates, às consecutivas tentativas de assassinato de carácter contra António Costa e à criação de uma ideia cor-de-rosa sobre o país, verdadeiramente por eles pintado com as cores escuras do luto dos que partiram ou dos que, ficando, se sentiram miserabilizar.
Pouco a pouco a “narrativa” vai caindo: assim aconteceu com a sobretaxa, assim está já a suceder a respeito da promessa de não sobrarem custos para os contribuintes com as atribulações do setor financeiro.
O que a realidade vai demonstrando é a revelação da verdadeira face de quem, fraudulentamente, andou a enganar os portugueses e ainda quis que eles lhes agradecessem com o seu voto.
Muito embora se reconheça a dificuldade de milhares de votantes no PàF em reconhecerem a verdade - terem-se comportado como uns lorpas! -  as consecutivas revelações sobre a verdadeira face de passos coelho e de paulo portas fá-los-ão atinar.
A derradeira tentativa da direita em evitar o naufrágio da sua arrombada nau foi a de evitar ao máximo a tomada de posse de António Costa, com a cumplicidade de cavaco silva e sob o argumento da ilegitimidade. Agora que ele se esvaiu, quer passos, quer portas já intuíram a longa travessia no deserto que os espera e, por isso mesmo, puseram fim à coligação, que figura no imaginário coletivo como representando tudo aquilo que não tardará a comprometê-los enquanto herança do passado, que sabem ir cair-lhes em cima. E, também por isso, os setores do PSD ligados a rui rio começam a movimentar-se, afirmando aquilo que já se lhes afigura como inevitável: nunca passos coelho lhes poderá devolver o acesso ao poder. E, se outra demonstração lhes faltasse, o despedimento de Mourinho do Chelsea aí está a lembrá-lo: quando aparenta repetir-se, a História já não o faz como tragédia, mas como mera farsa.
Desmascaradas as mentiras relativas ao setor financeiro, importa transitar para o outro dossiê escaldante: o das privatizações, porque desde a venda da EDP aos chineses (com o consequente prémio a catroga) até ao mais do que suspeito negócio da TAP, tudo nele cheira a esturro e motiva as maiores suspeitas. E, nesse sentido, talvez não faça mal ao Ministério Público recuperar alguma da perdida credibilidade ao lançar-se em matérias de investigação realmente consistentes.
Se o caso BPN comprovou a promiscuidade entre o poder laranja e os negócios privados sem que a Justiça neles nada tenha visto de suspeito, talvez seja o momento certo para identificar onde radicam os maiores focos de corrupção de que o país tem padecido nestes últimos anos.

O Hospital do Seixal volta a estar na ordem do dia

Grande intervenção da deputada Ana Catarina Mendes a anunciar o compromisso do Partido Socialista com o processo de construção do novo Hospital do Seixal.

Uma noite de excelente debate político

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A candidatura da Independência e da Cidadania

Uma das tentativas que, reiteradamente, tem sido feitas a respeito da candidatura de Sampaio da Nóvoa é a do seu suposto e excessivo alinhamento à esquerda. Essa tem sido, por exemplo, a crítica de uma das suas principais concorrentes que, nada tendo de substancial a propor aos eleitores, costuma justificar a sua incompreensível candidatura com a estratégia do empurrão a quem julga situar-se no seu espaço político.
Daí que os apoiantes do antigo reitor da Universidade de Lisboa devam acentuar a importância da independência da sua candidatura. Porque, ao contrário do candidato mais à direita, ele nunca apoiou partidos defensores do rumo austeritário seguido pelo país nestes últimos quatro anos, nunca compareceu nos respetivos congressos nem participou nas consequentes campanhas eleitorais. E, muito naturalmente, não tem o apoio contranatura de Passos Coelho ou de Paulo Portas. O que só o enaltece!
Ao contrário da candidata, que se afirma do centro-esquerda, nunca esteve alinhado com nenhum partido político, nem exerceu cargos de administração em empresas do setor bancário ou da área da saúde. Nunca se lhe conheceu situações comprometedoras de estar ao mesmo tempo num cargo (o de deputado numa comissão parlamentar) e de nele estar a defender os interesses dos grupos privados para que pudesse trabalhar.
Da mesma forma, em todos os cargos que exerceu nunca se lhe conheceu a falta de isenção demonstrada por essa mesma candidata, quando esteve na condição arbitral entre duas posições antagónicas dentro do seu partido.
A candidatura de Sampaio da Nóvoa proveio do espaço da Cidadania em que se reconhecem milhares de portugueses, para os quais o exercício da política não se esgota nos espaços partidários. E, por isso mesmo, merece o apoio de três antigos Presidentes da República, qualquer deles o mais diferente possível dos demais.
A seriedade de Ramalho Eanes, a visão de futuro de Mário Soares e a sensibilidade social de Jorge Sampaio conjugam-se na perfeição na personalidade e na biografia de Sampaio da Nóvoa. Não admira, pois, que ele mereça o apoio entusiástico da maioria dos que na Cultura, no Conhecimento e na participação cívica têm eles próprios um caminho sustentado.
Os apoiantes de Marcelo confundem-se com o lado kitsch da sociedade portuguesa, enquanto Maria de Belém tem a seu lado - e com algumas singulares exceções - os derrotados nas Primárias do Partido Socialista de há um ano atrás, e que viram nesta candidatura a possibilidade de uma desforra.
Se uns têm a ver com o país conservador, ainda condicionado pela herança diminutiva do regime fascista, os que tiveram por objetivo colocar pedras no caminho já difícil do atual primeiro-ministro não pensaram no Partido ou nos portugueses, porque os motivou os mesquinhos interesses pessoais.
Acima daquilo a que os franceses designam como “política politiqueira”, Sampaio da Nóvoa distancia-se dos jogos partidários e emerge como o único dos candidatos a estar em consonância com o país que quer andar para a frente, com mais crescimento e emprego, com mais qualificação e valorização dos cidadãos e com a audácia de voltar a fazer-se ouvir no meio do ruidoso concerto das nações…
Daí a importância de, a 24 de janeiro, fazer da candidatura de Sampaio da Nóvoa aquela que passará à segunda volta com as melhores possibilidades de garantir a vitória final...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A Força está com ele!

Em linha com o que escrevi noutro texto, o jornalista do «Expresso» Filipe Santos Costa aproveita a estreia do sétimo filme da série «Guerra das Estrelas» para concluir que a Força está com o novo primeiro-ministro. Acrescentando que “não precisa de sabres de luz nem de discursos luminosos!.
Além de elogiar a solenidade que António Costa devolveu à função e aos debates parlamentares, em clara rutura com a quase indiferença de passos coelho, o artigo dá grande importância à intenção de alterar o sistema de governação do Banco de Portugal, que tem demonstrado a sua insuficiência.
No debate a líder bloquista questionara-o quanto ao que iria fazer com carlos costa, cujo historial no exercício da função tem sido o que se sabe. A resposta não foi clara, mas é óbvia a intenção de, mesmo não podendo contar com um rebate de consciência do ainda governador, de quem se esperaria no mínimo a honestidade de colocar o lugar à disposição do novo Governo, Costa estar disposto a retirar-lhe muitos dos poderes de que usufrui e que tão mal tem usado.
Mas, num dia assaz positivo para o governo, foi também notícia a satisfação da Associação de Armadores das Pescas Industriais em relação ao acordo conseguido em Bruxelas para um aumento em 11% das capturas em 2016. A demonstração de uma capacidade negocial, que raras vezes vimos no anterior executivo, normalmente disposto a ser sujeito passivo nas decisões que outros tomavam relativamente aos interesses nacionais.
Uma nota final para um sinal de mudança na arena internacional: reconhecendo tardiamente o seu erro, surgiu a notícia de Obama já não insistir na saída de Bashar al Assad do cargo de presidente da Síria. Um vislumbre de clarividência de quem se tem revelado cúmplice mais ou menos voluntário de forças abertamente terroristas...

A direita enleada no seu labirinto

Não tinha dúvidas quanto ao que resultaria do primeiro debate quinzenal de António Costa com os deputados da Assembleia da República: existe uma tão grande confiança nesta equipa ministerial, que só poderia correr mal para a direita.
Antes de se iniciar havia quem afiançasse a escusa de passos coelho e de portas em intervirem, mantendo a lógica da suposta ilegitimidade da solução governativa. Afinal eles pareceram ter atinado e, ao dirigirem-se a António Costa com o respeito enquanto primeiro-ministro, deram a aparência de entrarem, mesmo a contragosto num ciclo político do qual temem ser marginalizados. Mas, se passos coelho começou relativamente bem, portas desatinou e insultou sob a capa de querer dar conselhos a quem deles não precisa. Concluiu-se, assim, que, mesmo pondo fim ao PàF, os dois partidos entenderam-se quanto ao seu desempenho: um quer passar pelo polícia bom e o outro pelo polícia mau, sem compreenderem qual o seu verdadeiro papel nesta fase histórica, que é o de servirem de vilões.
Confirma-se que a esquerda está consolidada na forma como interage no hemiciclo, mesmo sem o receio de apresentação das respetivas divergências. E a direita está confrontada com o grave problema de saber como contrariar essa cumplicidade. Tanto mais que as circunstâncias também não a ajudam: não é que até as taxas de juro para a dívida portuguesa até se mantém em terreno negativo?
Se as mais recentes sondagens já davam o PS à frente do PSD, como acontecerá quando as medidas agora anunciadas começarem a ser implementadas e, melhor ainda, a comprovarem os seus efeitos benéficos?

Seis questões e um comentário final

As duas horas e tal da entrevista de José Sócrates à TVI constituiram uma excelente oportunidade para ouvirmos a sua versão relativamente ao processo kafkiano, que lhe foi imposto, sendo credíveis quase todas as explicações por ele dadas às questões de José Alberto de Carvalho.
Como balanço ficam algumas perguntas pertinentes:
1 - quando é que o Ministério Público decide cumprir os prazos na lei e decide se vai ou não produzir uma acusação?
2 - quando é que os pedidos de paulo silva e carlos alexandre para que se investigue a própria investigação, e sobretudo as inqualificáveis fugas de informação para o pasquim da Cofina, será iniciada e por quem?
3 - quando é que joana marques vidal responderá às fortes acusações sobre a sua culpabilidade quanto ao “terrorismo” praticado pela instituição que dirige, contra um cidadão e sua família?
4 - a comprovarem-se as responsabilidades de joana marques vidal, amadeu guerra e rosário teixeira em toda esta cabala organizada contra José Sócrates, por quanto tempo conservarão ainda os seus cargos?
5 - e carlos alexandre, por quanto tempo ainda poderá ser o superjuiz, que tudo faz para espantar a concorrência e manter-se num cargo para o qual não demonstrou a exigida probidade?

6 - e, depois de tudo isto, será que o pasquim do grupo Cofina fica incólume, sem sofrer as consequências da torpe campanha, que alimentou anos a fio? Não seria despropositado exigir a paulo fernandes e aos seus diretores e chefes de redação um importante contributo para a avultada indemnização, que José Sócrates virá a merecer do Estado Português, quando ficar definitivamente desfeita a tese da sua suposta culpabilidade.
Mas a noite na TVI24 teve a revelação de mais duas fanáticas representantes dos anti-socratistas militantes: uma tal sofia vala rocha e raquel varela foram a mais pura demonstração da demagogia e da desonestidade intelectual presente nessa horda ululante, mas parca em argumentos dignos desse nome.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Saída limpa? Uma ova!

O artigo de João Galamba no «Expresso» de anteontem passou quase despercebido, mas vale a pena retomá-lo, porque demonstra  três aspetos, que nunca são demais enfatizar:
1º - é o próprio Banco de Portugal a reconhecer, num seu estudo agora conhecido, que a taxa de juro portuguesa estaria bem acima dos 4,5% se o BCE não mantivesse a estratégia definida por Mario Draghi nos últimos dois anos. Ou seja, num patamar em que a necessidade de um segundo resgate se poria.
2º - é factualmente falso que Portugal tenha concluído o seu programa de ajustamento com sucesso, já que todos os objetivos pretendidos não foram alcançados;
3º - houve intenção do governo de passos coelho e de maria luís albuquerque em adiar a resolução dos casos BES e Banif para depois das eleições, de forma a não estragar a mentira da «saída limpa».
João Galamba dá assim razão a Mário Centeno, quando conclui que, “caídas todas as máscaras e levantados todos os véus, percebemos hoje que a expressão 'saída limpa' foi um resultado pequeno para uma propaganda enorme.”

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Hipocrisias ...

Em poucas semanas vi dois documentários sobre a forma como a indústria farmacêutica anda a induzir o consumo de produtos opiáceos em quem sofre de dores crónicas e fica, numa inesperada situação de toxicodependência.
Seja na Europa, seja no outro lado do Atlântico Norte, os médicos receitam cada vez maior número de substâncias desse tipo, que levam os pacientes a criarem uma dependência tal, que, ora acabam em clínicas de desintoxicação, ora acabam por ceder a overdoses.
Legitimado por decorrerem de atos médicos esse autêntico tráfico legal de drogas acaba por viver promiscuamente com o seu lado clandestino, porquanto são muitos os falsos doentes, que obtém receitas de tais comprimidos e os colocam à venda nas ruas.
A exemplo do sucedido com a indústria tabaqueira, vivemos a hipocrisia de uma sociedade que cria leis destinadas a penalizar os que são os elos mais fracos de uma enorme cadeia de interesses - os doentes e os pequenos traficantes - mas salvaguarda, e de que maneira!, os interesses dos que acumulam lucros obscenos no seu topo. É o capitalismo no seu “esplendor”!

Quem está a lucrar com a história do Banif?

Que significam as notícias desta manhã relativamente ao Banif? Quem as terá lançado e com que motivo?
Parece óbvio que ninguém no governo estaria interessado em que isso acontecesse, quando ainda mal tempo houve para o estudo do dossiê. Pelo contrário, as notícias espalhadas nas redes sociais na noite de ontem e hoje estampadas na imprensa só dificultam a margem de manobra do Ministério das Finanças, por muito que a solução deva ser assumida obrigatoriamente pelo Banco de Portugal.
A exemplo dos policiais de Agatha Christie em que o culpado do crime é sempre quem com ele mais lucrará colocam-se três hipóteses pertinentes para a autoria dessa fuga de informação.
Em primeiro lugar alguém dos acionistas ou dos depositantes com mais de cem mil euros na conta, que temem a possibilidade de virem a perder uma parte do seu património se a resolução do problema acontecer já depois de 31 de dezembro e com a alteração das regras europeias quanto à forma como ela pode vir a ser considerada.
Outra possibilidade é a de se tratar de um facto criado por quem queira comprar o banco a preço ainda mais irrisório do que ele efetivamente vale (e que é quase nada!).
Mas a que parece mais lógica é a de se tratar do primeiro sinal do tipo de sabotagem lançado por quem pretende dificultar a vida ao governo de António Costa. Seja a partir do Banco de Portugal onde quase todos os cargos de topo foram ocupados por gente da confiança de carlos costa, cujo futuro à frente da instituição poderá ficar seriamente em causa com a investigação parlamentar a todo o seu comportamento durante os anos de passismo, seja de alguém próximo da antiga ministra das finanças, que conhece bem a realidade e sabe como melhor a utilizar para os seus objetivos revanchistas, podemos estar perante uma estratégia, que conhecerá muitos outros episódios a curto prazo.
É por isso mesmo que António Costa terá de ser implacável e cortar as cabeças dessa hidra direitista tão só elas despontem à luz do dia.
Como costumava dizer aos meus colaboradores na empresa, que dirigia, a situação não é fácil, mas é por isso que tem de ser vencida por aqueles que são os melhores de entre os muito bons… E a equipa de António Costa é, de facto, excelente para o concretizar!

Quando o catavento mudasse de direção

Há dias um amigo de esquerda dizia-me não temer marcelo na presidência, porque o seu feitio nada teria a ver com o de cavaco, esse sim um perigo permanente para o governo de António Costa se ainda tivesse mais algum tempo de mandato.
A vaidade de marcelo tenderia a levá-lo a fazer quanto pudesse para ficar na História como um Presidente consensual entre o maior número possível de portugueses, execrando a sombra do antigo titular, cujos maus índices de popularidade não têm paralelo na História da nossa democracia.
No «Eixo do Mal»,  Daniel de Oliveira deixou, porém uma ressalva importante: marcelo não mexerá um único dedo para ajudar quem o apelidou de catavento, mas se se assistir ao epílogo deste hiato neoconservador e o PSD conseguir regenerar-se para disputar o centro com o Partido Socialista, que fará? Manterá a prometida isenção ou favorecerá a sua família política? Não sentirá a tentação de apoiar tudo quanto possa contribuir para uma viragem política à direita, que a torne mais apelativa ao seu eleitorado tradicional?
Se pretendermos consolidar o atual ciclo político, e todas as expetativas entretanto criadas, terá de haver um poderoso empenhamento na candidatura de Sampaio da Nóvoa, o único a identificar-se sem reservas com o processo, que conduziu António Costa à liderança política do país.

domingo, 13 de dezembro de 2015

O risco de comemorar vitórias antecipadas

A História ensina-nos que, muitas vezes, quando a situação parece mais insuportável, abre-se uma janela e entra um exuberante raio de luz onde parecia grassar a escuridão.
Só para não ir muito atrás no tempo, quem diria às oito horas da noite de 4 de outubro, quando todas as televisões anunciavam a vitória de passos coelho que, dois meses depois, já contávamos com uma solução governativa à esquerda?
E, ainda mais perto de nós, temos o exemplo das eleições francesas: uma semana atrás, os neofascistas festejavam a vitória e já se imaginavam à frente de duas importantes regiões, quando afinal morrem na praia com derrotas convincentes em todo o Hexágono.  Mesmo contando com o estímulo bem recente dos atentados, que terão levado os mais timoratos a acreditarem nas soluções securitárias da família le pen.
Poder-se-á concluir que se não foi desta, quando tudo se conjugava para o seu sucesso, nunca os le pen alcançarão os seus objetivos!
Assumidamente otimista e a quase dois anos das próximas presidenciais, acredito na possibilidade de Hollande ganhar a reeleição e ajudar o seu partido a recuperar a liderança no quadro eleitoral. Basta para isso mostrar a sensatez  e a gravidade exigível a um homem de Estado, que tem sabido ser mais recentemente, após uma primeira fase de mandato mais do que polémica.
Muito embora a Europa comporte no seu seio governos antidemocráticos ou de um conservadorismo grotesco, está a necessitar-se de uma viragem decisiva para políticas socialmente mais justas e igualitárias. E o sucesso do atual governo português, a par do de Tsipras na Grécia e do que decorrer das eleições espanholas, bem pode criar essa mudança qualitativa, que tornará obsoletas as (falsas) soluções austeritárias da direita ou a xenofobia securitária dos neofascistas...

Silêncios e comprometimentos

1. No «Expresso» Ricardo Costa reconhece que uma expressão como “geringonça” - que paulo portas surripiou a vasco pulido valente - poderá ser boa para garantir aplausos nas assistências a quem se destina (a dos seus indefetíveis votantes!), mas que eles terão fim mais tarde ou mais cedo. E depois fica o som das cadeiras a arrastarem.se, das pessoas encaminhadas para a saída, tudo culminando no apagar das luzes e no silêncio.
É isso mesmo que atormenta a direita: esgotadas as munições de insultos e de desconsiderações para com António Costa, fica evidente a falta de estratégia para se acomodar ao novo ciclo político, que promete ser merecidamente duradouro. É que o comboio passou pela estação, embarcou quem nele estava disponível para entrar e deixou no cais quem só pode agora olhar para o relógio e aguardar pelo que se lhe seguir...
2. Anualmente o ranking das escolas constitui uma enorme de promoção publicitária do ensino privado, ao querer equiparar à força o que não pode ser comparável. Quer na quantidade de alunos, quer nas respetivas condições familiares, as escolas públicas ficam totalmente desfavorecidas ao não lhes ser autorizada a seleção dos melhores alunos ou não contarem com os das classes mais favorecidas, cujos pais têm posses para pagarem as avultadas propinas.
A concentração dos estudantes das escolas privadas é muito favorecida por condições de vida onde quase nunca surgem as angústias e inquietações relacionadas com o desemprego, a violência doméstica ou o quanto sobra de mês no final do ordenado dos progenitores.
Todos sabemos do porquê destas «notícias»: a direita precisa de argumentos justificativos dos obscenos subsídios atribuídos a colégios privados em espaços suficientemente servidos pela escola pública.  Mas, mais do que a defesa dos negócios dos amigos, a direita sabe que o “ensino” das escolas privadas tende a criar alunos com falaciosas arrogâncias elitistas e preparados para defenderem a suposta “meritocracia” que é a negação basilar da igualdade socialmente desejável.
3. É digno de ser reconhecido o esforço das direções de informação dos telejornais em selecionarem os conteúdos dos seus programas de forma a protegerem ao máximo os interesses da direita, a que se sentem ligados.
Uma das que passou, e logo foi esquecida, teve a ver com o relatório do Banco de Portugal que reviu em baixa o crescimento económico do país nos próximos anos: a economia deve crescer 1,6% em 2015 (antes era 1,7%); em 2016, em vez de 1,9% serão 1,7% e 1,8% em 2017, abaixo dos 2% previstos anteriormente.
Repare-se que este estudo foi elaborado ainda na vigência do governo anterior, quando ainda eram desconhecidos os efeitos das políticas a serem tomadas pelo atual governo socialista. Confirma-se que as previsões favoráveis do Banco de Portugal durante os meses de verão tinham um objetivo político concreto: contribuírem para a narrativa de um país com menos desemprego, mais exportações e pujante crescimento económico. O que justifica um pedido ao governador, que tem andado muito calado nestes últimos dias. Porventura buscando acautelar
Uma a uma as bandeiras da direita têm sido negadas na sua veracidade, dando razão aos que alertavam para o país de pacotilha em que estávamos a ser embalados. E o que nos faltará ainda descobrir?

sábado, 12 de dezembro de 2015

E o Óscar de 2016 irá para ...

Está a tornar-se ostensivo o boicote ativo das televisões à candidatura de Sampaio da Nóvoa.
Ontem isso foi evidente na jornada que trouxe o candidato a Almada e ao Seixal, em que andou sempre acompanhado por grandes comitivas e teve como corolário um jantar-comício com mais de duzentos apoiantes.
Se a RTP e a TVI ainda acompanharam parte da visita feita aos pescadores para ver in loco a arte da xávega praticada na Costa da Caparica, e ouvir as explicações de José Ricardo (presidente da junta de Freguesia) e do investigador José Carlos Ferreira sobre a nossa riqueza marinha, à noite essas mesmas estações e a SIC primaram pela ausência num grande evento com lotação esgotada.
Enquanto Marcelo e Maria de Belém têm tempo de antena exagerado para aquilo que andam a fazer, o Prof. Sampaio da Nóvoa tem uma agenda preenchidíssima - que nem hoje, dia do seu aniversário, conhece tréguas! - contactando diariamente com centenas de cidadãos a quem ouve os anseios e a quem transmite palavras de esperança, nada disso sendo refletido para a opinião pública.
Porque será que o convite de uma cidadã para acompanhar Marcelo à missa nos Açores merece tanto tempo de antena e passa clandestino o apoio do mediático Barbas ao Prof. Sampaio da Nóvoa? Porque será que se mostram imagens de Maria de Belém a discursar num palanque e não se dá conta da respetiva assistência, quase invariavelmente constituída por plateias vazias?
Não admira, que, a quarenta e poucos dias do ato eleitoral, as sondagens ainda revelem um enviesamento, que não corresponderão à realidade apurada na noite de 24 de janeiro. Porque, entretanto, serão mais uns bons milhares de cidadãos os que ouvirão o discurso cativante, e com substância, do professor, e sobretudo ocorrerão os debates frente-a-frente - onde não será difícil revelar-se qual a candidatura efetivamente em sintonia com a mudança política, que vivemos no país.
Como se viu na entrevista à SIC, com entrevistadores experimentados e politicamente orientados para questões, que poderiam ser-lhe adversas, o Prof. Sampaio da Nóvoa soube escusar-se às potenciais armadilhas e dominar o debate cingindo-o ao terreno das ideias e das propostas concretas onde se revela imbatível. Será aliciante vê-lo estilhaçar a demagogia primária de Paulo Morais, o prazo de garantia ultrapassado de Henrique Neto ou o bem penteado vazio de ideias de Maria de Belém. Mas, sobretudo, será entusiasmante vê-lo enredar Marcelo nas suas contradições e inconsistências ideológicas. O discurso de ontem à noite, em Fernão Ferro, revelou um candidato, que arregaçou as mangas e está disposto a cumprir o papel expectável num político de eleição: propor uma Visão exequível e consistente do futuro, mas também denunciar o perigo das opções pelas alternativas em jogo.
Faltando o ato, que muitos estão a desvalorizar, mas que acaba por ser o mais determinante - o da colocação do tal retângulo de papel dobrado em quatro numa urna de voto - é evidente que Marcelo arrisca o ridículo ao apresentar-se nas entrevistas com um fundo institucional, em contradição com a imagem acumulada nos últimos anos e, sobretudo, ao anunciar-se já como presidente daqui a algumas semanas.
Após episódios como o do mergulho no Tejo, o candidato de passos coelho e de paulo portas não imagina o tamanho da desilusão, que será o da noite em que tiver de dar os parabéns ao vencedor da segunda volta das Presidenciais. Será espetáculo imperdível para 2016, com direito a Óscar para a melhor comédia de enganos do ano...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Entre vaidades e o ovo no dito cujo da galinha

Na «Quadratura do Círculo» Pacheco Pereira fez um diagnóstico certeiro sobre a candidatura de Maria de Belém à presidência da República, apresentando-a como a responsável por inteiro do facto de não existir um forte candidato apoiado pelo Partido Socialista nesta primeira volta, e que seria naturalmente António Sampaio da Nóvoa.
Nesse sentido se marcelo vencesse logo a 24 de janeiro, esse “mérito” pertencer-lhe-ia em parte, mas caberia sobretudo à ex-presidente do PS conotada com a ala derrotada nas Primárias de 2014.
 Ao ouvir essa análise foi evidente o desconforto de Jorge Coelho perante as câmaras: toda a sua postura corporal confirmou a ideia de saber quanto o interlocutor tinha razão. Respondendo-lhe com argumentação comprometida e pouco convincente.
Fica, portanto, a questão: porque a apoiou? É muito provável que os grandes nomes do PS associados a Maria de Belém - Manuel Alegre, Almeida Santos e o próprio Jorge Coelho - tenham a noção do erro em darem estamina a uma candidatura, que vai, não só contra os interesses do PS, mas sobretudo da maioria dos portugueses esperançados no sucesso da atual solução governativa. Mas, aprisionados por relações de amizade, terão contribuído para que se manifestasse a vaidade da candidata, completamente incapaz de se bater com marcelo onde ele pode, efetivamente, ser derrotado: no plano das ideias, sobretudo nas do futuro do país.
Há alturas na vida em que, entre a simpatia pessoal e a sensação de se dever algo a alguém, se devem sobrepor os valores mais elevados de superior interesse coletivo. É que, se por hipótese académica acabassem por ir à segunda volta, marcelo e Maria de belém só se poderiam contrapor na dimensão das respetivas vaidades e do vazio de ideias.
Felizmente essa hipótese torna-se cada vez mais improvável: apesar de contar com metade do tempo de antena de marcelo na antevéspera o discurso de Sampaio da Nóvoa durante a entrevista à SIC teve muito mais substância e foi bastante mais empático do que o do seu rival da direita.
Singularmente marcelo está a repetir os erros cometidos na mesma altura em que foi candidato a Presidente da Câmara de Lisboa contra Jorge Sampaio: perante o nada ter para dizer ao eleitorado, está a concentrar-se no lado formal da propaganda, como se ela bastasse para prender a atenção de quem o ouve, distraindo quem preferiria saber com que comportamento político irá contar.
O facto de ter surgido num cenário “presidenciável”, como se já tivesse ganho e a eleição de 24 de janeiro fosse mera formalidade, ele comete um pecado que o imaginário português costuma criticar sob a forma de um conhecido provérbio: o de já se estar a contar com o ovo no dito cujo da galinha. E talvez aí ele tenha perdido mais um número significativo de votantes.
É crível que nestes quarenta e poucos dias que nos separam do momento de depositarmos o voto na urna, e apesar dos favores da comunicação social à candidatura apoiada por passos coelho e paulo portas, muitos outros votantes orientem o seu voto para o único candidato que Pacheco Pereira reconhece em consonância com o novo ciclo político: António Sampaio da Nóvoa. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Uma outra maneira de fazer política

A entrevista com António Sampaio da Nóvoa, transmitida ontem pela SIC, só durou 23 minutos, mas foi mais do que bastante para demonstrar aos espectadores ainda desatentos quanto à sua personalidade, o discurso cativante, confiante e esperançoso do futuro Presidente da República.
Como se esperaria da estação de Balsemão, os jornalistas não estavam ali para facilitar a vida ao entrevistado, mas agilmente ele livrou-se das armadilhas da «política politiqueira» com que o queriam enredar sobressaindo o essencial da sua carta de princípios.
Logo à partida Anselmo Crespo procurou a via da desestabilização com uma pergunta, que poderia ter derivado para terrenos pouco propícios à postura ética do candidato: se teria avançado acaso soubesse da falta de apoio oficial do Partido Socialista e de Maria de Belém ter, por seu lado, também avançado.
A resposta foi secante: claro que avançaria porque sentiu-se motivado por uma necessidade interior em dar tudo por um Portugal, que estava cada vez mais fraturado e a regressar ao Portugal de antigamente com que não se podia resignar.
Quando Crespo e Clara de Sousa quiseram lançar cenários hipotéticos (“o que decidiria se…”) ou entrar pelo lado da coscuvilhice (“António Costa prometeu-lhe alguma coisa?”), foram logo postos na ordem em nome da sensatez ou da escusa em confirmar palpites entretanto emitidos pelos jornais e ali rebatidos. Pelo contrário, Nóvoa reiterou a caracteristica independente da sua candidatura, imparcial e exógena em relação aos partidos, capaz de receber apoios de todos os partidos de esquerda, e não só, porque também representa setores sociais e culturais não diretamente a ela vinculados..
Quando insistiram no tom, a resposta foi elegante, mas sem contemplações: “não venho aqui em nome de tricas políticas, em nome de intrigas, em nome de ajustes de contas partidárias, não venho em nome da política do mesmo. (…) Venho em nome de outra maneira de estar na política, numa outra maneira de participar no futuro de Portugal – do país da Educação, do Conhecimento, da Cultura. Do país que leva tudo isso para a Economia e para a sociedade. De um país que leva tudo isso para a livre iniciativa das pessoas, das instituições e das empresas.” 

Desiludidos, dizem-se eles!

1. Há uns dias um encontro promovida pela associação patronal do turismo algarvio serviu de palco a um conjunto de ataques ideológicos ao novo governo socialista. Gente como vítor bento ou joão césar das neves foram repetir as habituais homilias opusdeicas sobre o prometido inferno se prosseguido o caminho das pedras agora iniciado.
E, no entanto, os indicadores, que dão o Algarve como a região onde 1/3 dos empréstimos bancários aos seus empresários, nomeadamente do setor do turismo, estão em incumprimento diz bem do tipo de assistência sentada nesse encontro tão mediaticamente promovido.
Por esses dias a Confederação patronal do setor disse-se dececionada com os sinais transmitidos pelo novo governo. Pudera: se representa gente para quem os deveres de serem bons pagadores é secundarizado pela ânsia em abocanharem apoios e subsídios , que os possam manter à tona de água, pode-se compreender não estarem a viver presentemente momentos felizes.
2. Portugal caiu dez posições num ranking climático internacional realizado por organizações ambientalistas como resultado das políticas antiambientais seguidas pelo governo de passos coelho.
Entre 2011 e 2015 não só foi colocado um sério travão nas políticas em prol das energias renováveis, que eram um dos principais fatores estratégicos do Governo de José Sócrates, como foi reduzida a qualidade e quantidade de oferta do transporte público, que motivou um maior recurso ao transporte privado para as deslocações profissionais.
Houve, pois, um desvio abrupto de uma estratégia, que fazia todo o sentido, e que só agora poderá ser retomada.

Xeque mate a uma deputada pàfista

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O dilema de Pacheco Pereira

Deve Pacheco Pereira sair do PSD? Por vontade de muitos dos seus companheiros de partido isso já deveria ter acontecido há muito tempo tendo em conta a forma ácida como se manifestou contra a governação de passos coelho nos últimos anos. Mas ele está longe de lhes fazer a vontade na esperança de vir a contribuir para a mudança necessária num partido, que extremou a sua mensagem política e é hoje muito mais próximo dos republicanos do “Tea Party” do que dos valores sociais-democratas, que continua a ostentar na sua designação.
Ao contrário do que eu próprio vivi entre 2011 e 2013, quando a liderança socialista estava muito aquém do que desejaria que fosse, não acredito na bondade da decisão de Pacheco Pereira em ficar, Enquanto nesses dois anos se sentiam existir alternativas consistentes para infletirem um rumo que Seguro nunca soube propriamente pilotar, o PSD de hoje é um vazio onde não sobram ideólogos capazes de o fazerem sair do torpor austericida em que se deixou encerrar.
Chegado ao poder com o respaldo da troika, passos coelho nunca se deu ao trabalho de criar outras ideias, que não as do pacote ideológico servido pelos técnicos do FMI, do BCE e da Comissão barroso. E, qual eucalipto, secou tudo quanto estava à sua volta. Hoje ouvem-se os comentários políticos de marques mendes, manuela ferreira leite ou morais sarmento - inclusivamente de marcelo rebelo de sousa, quando ainda não se declarara candidato presidencial! - e só neles cabe a lógica da intrigazinha estéril sem ideias concretas, que sirvam de alternativa às que a direção laranja continua sem ter.
Manifestamente o centro político nacional tende a consolidar-se no PS, que poderá enriquecer a ação governativa com as ideias pertinentes sugeridas à sua esquerda. Porque essa é a grande diferença entre os dois extremos entre os quais o PS se equilibra: enquanto a direita está acéfala, não faltam à esquerda as propostas dignas de serem atendidas.
Sobra, porém, um problema: se ouvirmos os discursos dos patrões - desde a CIP à CAP passando por aquelas associações mais ou menos anónimas, que só cavaco parecia conhecer para lhe servir de altifalante à saída das reuniões de Belém - grande parte do patronato está, igualmente, cristalizado numa visão profundamente radical do que devem ser os seus direitos e deveres. A forma como pretendiam transformar o Concelho de Concertação Social numa espécie de órgão com poder de veto sobre tudo quanto o governo decidisse, diz bem da excessiva influência, que ganharam nos últimos anos.
Uma das principais tarefas a ser cumprida pelo governo de António Costa deverá ser o do reequilíbrio de forças e de rendimentos entre o fator capital e o fator trabalho. Porque nenhuma sociedade democrática digna desse nome pode aceitar que caiba a uma minoria abastada a parte de leão do poder e do rendimento nacional, enquanto a grande maioria esteja condenada a “comer e calar”.
Provavelmente a irreverência ideológica de Pacheco Pereira seria mais coerente se adotasse a pose definitiva de um pensador independente, disposto a não permitir que a sua continuidade no PSD lhe dê o alibi para ainda se julgar um partido pluralista.