domingo, 19 de julho de 2026

A Bufaria e o Capote

 


Há pecados que a Bíblia não cataloga com nome próprio, mas a consciência comum reconhece sem hesitar. Este governo cultiva dois com particular esmero: a bufaria e o sacudir a água do capote.

A bufaria apareceu, na forma mais crua, na Prestação Social Única. Estava lá, escrito, um canal de denúncias — o convite formal a que cada português vigiasse o vizinho e reportasse quem, na sua opinião, usufruísse de rendimentos ilegítimos.

Não importava se a suspeita tinha fundamento. Importava mobilizar a coscuvilhice e a inveja, transformar a vizinhança num posto avançado da fiscalização social e estigmatizar ainda mais os pobres, os imigrantes, os que dependem de apoios para sobreviver.

O PS conseguiu retirar essa aberração do diploma, mas a intenção ficou registada. Um governo que apela à delação entre pobres revela o que deles pensa — e de si mesmo.

O segundo pecado tem cara e currículo. Fernando Alexandre, nos tempos da troika, já propusera que os reformados perdessem definitivamente o direito ao décimo quarto mês. Não uma suspensão de emergência — uma perda definitiva, ferida permanente inscrita na lei. É o retrato antecipado do homem: para o economista, o idoso que trabalhou a vida inteira é uma rubrica a cortar, não uma pessoa a respeitar.

A promoção a ministro parece ter-lhe estimulado o ego sem lhe aumentar a estatura. Porque um ministro digno do cargo entende uma coisa simples: tudo o que acontece na área que tutela é da sua responsabilidade, o bom e o mau, o êxito e o fracasso. É a essência do lugar.

Fernando Alexandre entende o contrário. Perante o caos nos exames nacionais, atirou as culpas para os diretores das escolas, os professores, os serviços administrativos, os agrafadores, o código QR, António Costa — para toda a gente menos para quem assinava os despachos.

Sacudir a água do capote é isto: molhar-se e garantir que a poça fica aos pés dos outros. É cómodo, é cobarde e é, sobretudo, revelador. Quem não retira consequências dos próprios fracassos demonstra não ter a envergadura moral que o cargo exige. A demissão, que noutro país seria automática, aqui nem sequer se pondera — porque assumir seria admitir, precisamente o que este homem não sabe fazer.

Os dois pecados têm a mesma raiz: a fuga à responsabilidade. Quem apela à delação foge da responsabilidade de combater a pobreza pelas causas e prefere caçar os pobres um a um. Quem culpa os subordinados foge da responsabilidade de gerir e prefere encontrar bodes expiatórios. Num caso e noutro, a vileza é a mesma. Muda apenas a escala.

A Bíblia não os nomeia. Mas tinha razão o povo quando dizia que a cara é o espelho da alma — e há almas que os exames, esses, retratam sem margem para revisão de nota.

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