domingo, 12 de julho de 2026

O Carro das Peças com Defeito

 


Ana Mercedes Pescada, professora e membro da Missão Escola Pública, escreveu na Visão a melhor caracterização que li do atual Ministério da Educação. Recordando um automóvel que teve em tempos, disse lembrar este ministério um carro construído com as peças defeituosas caídas ao chão da oficina. E acrescentou o veredito que a sabedoria popular guardava para casos assim: o que nasce torto, para o torto caminha, sem salvação.

A imagem é perfeita porque precisa. Um carro montado com refugo não avaria por azar — avaria por projeto. Cada peça defeituosa cumpre a função de falhar, e o conjunto limita-se a somar as falhas até ao estertor final. É a biografia do Ministério de Fernando Alexandre reduzida a uma metáfora de garagem.

Pescada dava um exemplo que vale por mil discursos sobre rigor. No exame de Português do 12.º ano, a proposta de escrita era cópia de um exercício publicado num livro de preparação para o exame. Ou seja: o ministério, rigoroso na exigência de originalidade aos alunos, foi incapaz de a praticar na única tarefa em que ela é obrigatória. E, pior, ao copiar de um manual comercial, premiou os alunos cujas famílias podiam comprá-lo e penalizou os que não podiam. A injustiça social embrulhada num descuido técnico — que é, no fundo, o resumo de toda a política deste governo para a escola pública.

Pescada lembra o tempo em que a construção dos exames obedecia a regras deontológicas estritas: sigilo, versões alternativas prontas à menor suspeita de fuga, consultores científicos, professores do terreno, a exigência de que nenhuma questão fosse copiada de lado nenhum. Era o rigor que dava aos exames a essência de justiça e integridade. Esse rigor foi substituído por convocatórias a professores mortos, plataformas que não funcionam, notas adiadas e negações desmentidas, uma a uma, pela realidade.

O ministro, entretanto, mantém-se no lugar com a serenidade de quem confunde permanência com competência. Não se demite porque, na lógica deste governo, fazê-lo seria admitir — precisamente o que estes figurões nunca fazem. Preferem culpar o código QR, os agrafadores, os diretores, António Costa, o alinhamento dos planetas. Tudo, menos o carro que conduzem e as peças com que o montaram.

Ana Mercedes Pescada, que conhece a oficina por dentro, disse o essencial numa frase. E este ministério, montado com o refugo que os outros deitaram fora, não tem alinhamento que o endireite nem mecânico que o salve. Só lhe resta o abate — e quanto mais cedo, menos alunos leva consigo na despistagem.

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