sábado, 11 de julho de 2026

Quem Paga? Pergunta o Ator

 

Wagner Moura esteve em Lisboa com a peça "Um Julgamento", no CCB, e vi-o antes em "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, onde compõe um homem acossado pela ditadura cujas preocupações eram sobretudo pessoais, nunca coletivas.

O ator, porém, não se confunde com o personagem: assume-se de esquerda, considera Lula o maior brasileiro do seu tempo e vê como tragédia a hipótese de os Bolsonaro regressarem ao poder em outubro. Até aqui, nenhuma surpresa desagradável.

O que me chamou a atenção foi outra coisa. Moura declarou interessar-se por uma pergunta que atribui à "direita civilizada": vocês de esquerda querem segurança social para todos, hospitais, cultura, acesso a tudo — mas quem paga? Acha a pergunta ótima e lamenta que o bolsonarismo, tornando a direita brasileira "intelectualmente desonesta", tenha inviabilizado esse debate.

Concedo-lhe a boa-fé. A pergunta é, de facto, legítima. O problema é que tem resposta — e a resposta é tão simples que raramente convém a quem faz a pergunta ouvi-la.

Quem paga? Pagam os mais ricos. Pagam os que hoje não pagam o que deveriam, protegidos por sistemas fiscais desenhados para os poupar. Pagam as grandes fortunas que se movem entre jurisdições para não contribuir, os lucros que escapam à tributação, o património que cresce sem esforço e é taxado menos do que o salário de quem trabalha. A riqueza existe, é abundante e está concentrada como nunca esteve na história. O que falta não é dinheiro — é vontade política de o ir buscar onde ele está.

A pergunta "quem paga?", quando formulada pela direita, não é um pedido honesto de informação. É um artifício retórico que pressupõe a resposta que lhe convém: ninguém pode pagar, logo não se faça. Serve para transformar a justiça social numa fantasia contabilística e para naturalizar a ideia de que os serviços públicos são um luxo insustentável, quando são, na verdade, uma escolha de prioridades. A mesma direita que pergunta quem paga a saúde nunca pergunta quem paga os benefícios fiscais aos grandes grupos, as parcerias público-privadas ruinosas, os resgates bancários.

Moura tem razão em querer o debate. Só lhe falta notar que o debate já foi feito e ganho, vezes sem conta, sempre que alguém teve a coragem de responder à pergunta em vez de a contemplar. Os mais ricos pagam. Falta apenas obrigá-los — e é justamente para impedir essa obrigação que a pergunta é feita com ar de quem não tem resposta.

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