quarta-feira, 1 de julho de 2026

Os Deploráveis e o Espelho II. O Paradoxo do Voto

 


Há uma aldeia no interior de Portugal — escolha-se qualquer uma, servem quase todas — onde fecharam a escola, a extensão de saúde, a estação dos correios e o último café que ainda juntava gente ao fim da tarde.

Os jovens partiram. Ficaram os velhos e ficou o ressentimento.

Nessa aldeia, nas últimas eleições, o Chega cresceu. E a pergunta que a esquerda faz, perplexa, é o porquê? Porque votam estas pessoas em quem nunca lhes dará escola, saúde, correios nem café?

O mesmo se pergunta no cinturão industrial do norte de França, onde Le Pen colhe o voto de operários que outrora votavam comunista. Ou nas cidades pós-industriais inglesas que Farage convenceu a votar pelo Brexit contra os seus próprios empregos.

O paradoxo é internacional: os mais pobres votam em quem governa para os mais ricos. Trump corta impostos aos milionários e enche comícios de gente que mal chega ao fim do mês. Ventura defende o IRS proporcional, que beneficia quem mais ganha, e recolhe aplausos de quem menos tem.

A tentação de explicar isto por estupidez é grande e é errada. Não é estupidez. É outra coisa, mais funda e mais difícil de combater: é dignidade ferida à procura de quem a reconheça.

Quem perdeu a fábrica não ficou só sem o salário. Perdeu o lugar no mundo, a utilidade, o orgulho de quem produzia algo. Quem viu a aldeia esvaziar-se não se viu apenas sem os serviços — perdeu a sensação de pertencer a um país que se lembra de que existe. E durante décadas, quem deveria estar do seu lado andou distraído.

A esquerda, quando governou, geriu globalizações que deslocalizaram fábricas, assinou tratados que premiaram o capital móvel e abandonou o território profundo à sua sorte, ocupada com causas que, sendo justas, não chegavam à mesa onde faltava o pão.

O populismo de direita percebeu este vazio antes da esquerda. Não o preencheu com soluções — não tem nenhuma —, mas com algo que a esquerda deixou de oferecer: atenção. Ventura vai à aldeia, fala a sua língua, nomeia a sua raiva e dá-lhe um culpado com cara e nome. É mentira, mas é a de quem escuta.

Ora, quem se sente escutado perdoa muita mentira a quem lhe dá atenção.

O voto contra o próprio interesse material não é irracional, mas escolha de quem prefere quem lhe reconhece a existência a quem lhe explica o erro. Entre o doutor que tem razão e o demagogo que lhe dedica tempo, ganha quase sempre o segundo.

Resta saber com que matéria se constrói esta mentira reconfortante — e por que razão resiste mesmo quando a realidade a desmente todos os dias. É o que veremos a seguir.

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