Há uma
aldeia no interior de Portugal — escolha-se qualquer uma, servem quase todas —
onde fecharam a escola, a extensão de saúde, a estação dos correios e o último
café que ainda juntava gente ao fim da tarde.
Os jovens
partiram. Ficaram os velhos e ficou o ressentimento.
Nessa
aldeia, nas últimas eleições, o Chega cresceu. E a pergunta que a esquerda faz,
perplexa, é o porquê? Porque votam estas pessoas em quem nunca lhes dará
escola, saúde, correios nem café?
O mesmo
se pergunta no cinturão industrial do norte de França, onde Le Pen colhe o voto
de operários que outrora votavam comunista. Ou nas cidades pós-industriais
inglesas que Farage convenceu a votar pelo Brexit contra os seus próprios
empregos.
O
paradoxo é internacional: os mais pobres votam em quem governa para os mais
ricos. Trump corta impostos aos milionários e enche comícios de gente que mal
chega ao fim do mês. Ventura defende o IRS proporcional, que beneficia quem
mais ganha, e recolhe aplausos de quem menos tem.
A
tentação de explicar isto por estupidez é grande e é errada. Não é estupidez. É
outra coisa, mais funda e mais difícil de combater: é dignidade ferida à
procura de quem a reconheça.
Quem
perdeu a fábrica não ficou só sem o salário. Perdeu o lugar no mundo, a
utilidade, o orgulho de quem produzia algo. Quem viu a aldeia esvaziar-se não se
viu apenas sem os serviços — perdeu a sensação de pertencer a um país que se
lembra de que existe. E durante décadas, quem deveria estar do seu lado andou
distraído.
A
esquerda, quando governou, geriu globalizações que deslocalizaram fábricas,
assinou tratados que premiaram o capital móvel e abandonou o território
profundo à sua sorte, ocupada com causas que, sendo justas, não chegavam à mesa
onde faltava o pão.
O
populismo de direita percebeu este vazio antes da esquerda. Não o preencheu com
soluções — não tem nenhuma —, mas com algo que a esquerda deixou de oferecer:
atenção. Ventura vai à aldeia, fala a sua língua, nomeia a sua raiva e dá-lhe
um culpado com cara e nome. É mentira, mas é a de quem escuta.
Ora, quem
se sente escutado perdoa muita mentira a quem lhe dá atenção.
O voto
contra o próprio interesse material não é irracional, mas escolha de quem
prefere quem lhe reconhece a existência a quem lhe explica o erro. Entre o
doutor que tem razão e o demagogo que lhe dedica tempo, ganha quase sempre o
segundo.
Resta
saber com que matéria se constrói esta mentira reconfortante — e por que razão
resiste mesmo quando a realidade a desmente todos os dias. É o que veremos a
seguir.

Pode dizê-lo. Há 50 anos a minha aldeia tinha 2000 habitantes. Hoje, se tanto, tem 1000.
ResponderEliminarHá 50 anos tinha duas escolas, farmácia, taxi, um posto da GNR.
Hoje tem uma escola, não tem farmácia, taxi e o posto da GNR é um homem em part-time. Em contrapartida tem um lar de idosos e um bar de putas, made in Brazil.
Há 50 anos 80% votava PCP. O restante era PS e PSD, digamos, 150 votos para o PS, 100 para o PSD.
Hoje o PS é ligeiramente o mais votado e o Chega tem mais de 100 votos. Quem vota neles sãos filhos dos antigos comunistas.
Bloco foi coisa que nunca lá houve, bicheza de cidade que leva vida duvidosa.
Quem está anestesiado não estrebucha, e se calhar nem sabe o que é a dignidade.
ResponderEliminarDito de outra forma. Podemos dar água a um asino, mas não podemos obrigá-lo a beber.